Sou como um grilo
a cantar solitário na madrugada,
sou como uma semente de algodão-do-leite
a dançar no ar, discreta e delicada.
O grilo salta,
como que em êxtase e contemplação,
e o mundo cabe no intervalo do ar,
um instante suspenso
entre partir e pousar.
A leveza da semente de algodão-do-leite
não luta contra o vento,
aceita-se, abandona-se,
como quem ora em silêncio.
Entre o salto do grilo
e o voo da semente alada
aprendo a ver
ternura e leveza no ordinário,
sem deixar de ver
o seu lado frágil.