Junior Silva

Aqueles que Amam Ficam

 

Há quem pense que o amor mora nas palavras,
que nasce quando a boca pronuncia promessas
e floresce em declarações cuidadosamente escolhidas.

Mas eu conheci um amor diferente.

Um amor que não se resumia ao breve clarão de dizer \"eu te amo\",
porque amar era mais vasto que três palavras.
Era pensar no café da manhã antes de dormir,
guardar uma história para contar depois,
imaginar um passeio qualquer numa tarde de domingo,
fazer planos tão simples que pareciam eternos.

Amar era construir morada dentro do futuro de alguém.

Era escolher dois lugares à mesa
quando ainda se estava sozinho.
Era transformar o singular em plural,
como quem, sem perceber,
já não sabia sonhar sem companhia.

Havia amor no desejo de dividir os dias comuns:
o mercado da semana,
a série interrompida pelo sono,
a caminhada sem destino,
o silêncio confortável entre duas presenças.

Porque o amor não vive apenas nos instantes grandiosos;
ele se esconde, sobretudo,
na vontade constante de incluir alguém na própria rotina.

E talvez a sua forma mais profunda seja essa:

Não a urgência de possuir,
não o espetáculo das palavras bonitas,
mas a serenidade de quem olha para a vida
e, diante de cada plano, cada caminho, cada horizonte,
pensa primeiro em quem gostaria que estivesse ali.

Há amores que gritam.

Outros apenas ficam.

Mas os que ficam transformam os dias em casa,
os hábitos em afeto,
e o futuro em uma estrada percorrida de mãos dadas.

E então compreendemos que amar nunca foi apenas dizer.

Amar é reorganizar o mundo inteiro
para que alguém caiba dentro dele.

Mas não basta.

Não basta planejar os dias,
dividir os domingos,
sonhar os mesmos caminhos
ou construir futuros em comum.

Porque o amor também é permanecer
quando as certezas vacilam.

É sentar à mesa dos desacordos
sem transformar diferenças em despedidas.
É escolher o diálogo quando o orgulho convida ao silêncio.
É compreender que nem toda ferida é um fim
e que nem todo conflito merece se tornar distância.

Amar é saber ficar.

É entender que um ponto não define o desenho inteiro,
que uma curva não apaga a estrada percorrida,
que um instante difícil é apenas um instante
diante de tudo o que foi construído.

Afinal, nenhum círculo deixa de ser círculo
por causa de um único ponto em sua extensão.

E entre os obstáculos,
as falhas,
os medos
e os desencontros,
o amor verdadeiro não procura perfeição.

Procura direção.

Porque amar, no fim,
é olhar para quem está ao seu lado
e escolher, mais uma vez,
ficar.

Mesmo quando seria mais fácil partir.

Mesmo quando as respostas ainda não chegaram.

Mesmo quando a tempestade tenta convencer
que o caminho terminou.

Porque quem ama de verdade
entende que relacionamentos não são feitos apenas de encontros,
mas também de permanências.

E que o amor não se mede pelas vezes em que tudo deu certo,
mas pelas vezes em que dois corações decidiram continuar
apesar do que deu errado.

Pois existe um \"nós\"
que é maior que o orgulho,
maior que o medo,
maior que a dúvida,
e maior que qualquer dificuldade que tente atravessá-lo.

E talvez seja essa a forma mais rara do amor:

não aquela que promete eternidade,
mas aquela que, todos os dias,
escolhe construí-la.