Eu pisaria descalça
nos corredores mofados da tua mente
onde os retratos apodrecem devagar
e os espelhos desaprenderam teu rosto.
Beijaria cada ferida tua
como quem acende velas num necrotério vazio,
sem medo do sangue seco,
sem nojo das partes que ninguém toca.
Te abraçaria até nas noites
em que tua alma vira tempestade
e derruba tudo ao redor
feito cidade esquecida por Deus
e pela companhia da escuridão
Porque sofrer, aparentemente, também é sinal de vida.
Eu ficaria.
Mesmo quando teus olhos
virassem janelas quebradas
e tua voz soasse
como móveis sendo arrastados
às três da manhã.
Não pediria amor.
Não pediria salvação.
Nem promessas bonitas
dessas que morrem mais rápido que flores arrancadas.
Só encostaria minha cabeça
no caos do teu peito
e ouviria tua tristeza respirar
como um animal cansado
Fugindo como presa.
E se tua alma desabasse
eu recolheria os cacos com as mãos nuas,
mesmo sabendo que irà sangrar.
mesmo sabendo
que algumas pessoas nasceram
para serem incêndio
e outras, tragicamente,
nascem querendo morar dentro dele.
E eu moraria.
Mesmo vendo a fumaça subir
pelas rachaduras do teu silêncio,
mesmo sentindo teus fantasmas ao redor
Te amaria nas versões horríveis também,
naquelas em que teu coração
vira um quarto fechado
cheirando a remédio e cigarro
Porque existe uma espécie de beleza podre
nas coisas que quase morreram
Tipo flor nascendo no cimento.
Ou gente quebrada tentando amar.
Eu apagaria os beck acesos
na palma da própria culpa
só pra que tu dormisses em paz
uma única noite
sem lutar contra si mesma.
E quando teus olhos se encherem de lágrimas
feito céu antes da chuva
eu seguraria teu rosto
como quem protege uma vela
da violência do vento.
Não pra te salvar.
Mas eu ficaria ali,
entre teus escombros
Fazendo companhia pra ti.
E assim, aprendendo que algumas almas não querem cura.
Querem apenas alguém
Capaz de sentar-se ao lado da ruína
Sem fugir dela.