Lesy Williams

O Anjo

Cruzei-me com uma figura angelical,

que me incutiu um papel maternal;

Foi no seu olhar que me perdi;

Numa tamanha profundeza me submeti.

 

O seu sorriso inocente me cativou;

O seu olhar de diamante me deslumbrou;

Foi aquele que me fez contemplar às escuras,

o limiar da maior das torturas.

 

O Anjo não era indiferente ao sentimento;

Por breves instantes se deixou levar pelo momento;

Mas assim que deu conta da intensidade,

preferiu afastar-se com a atrocidade.

 

Não lhe guardo mágoa ou ressentimento;

Ele só não soube lidar com a profundidade do sentimento;

Aquele anjo foi enviado do Céu,

para cumprir um papel que era legitimamente seu.

 

A sua rejeição me resgatou das trevas;

Envolta em revolta me cobri de lágrimas;

Tudo para me libertar de experiências nocivas,

que no final só podiam resultar em dádivas.

 

A sua frieza serviu como um tiro no peito;

Meses dolorosos sem descanso no meu leito;

Mas foi através do seu desprezo que descobri a verdade;

Aquele anjo veio para me causar vulnerabilidade.

 

O meu castelo de cartas se desmanchou ao vento;

A sua base nunca foi sólida o suficiente.

Só me restou arrancar o que não era meu,

para suplicar um pedido de ajuda decente.

 

O Anjo veio para fazer o seu trabalho;

Para libertar as cartas do meu baralho.

Tenho pena que ele não se tenha recuperado,

do fugaz dano que lhe foi causado.

 

Cambaleei sem entender o rumo que seguia;

Foi a bofetada do anjo que me endireitou nesta passagem.

Felizmente que encontrei significado ao que se dizia,

quando me foi prometido um verdadeiro sentido na viagem.

 

O anjo permanece estático no seu lugar;

A sua missão acarretou sérios riscos.

Só me resta continuar a orar,

para que ele possa voar,

 no meio de tantos chuviscos.

 

O Anjo desmorona-se ao ver-me partir;

A sua indiferença é claramente forçada.

Está na hora de me deixar cobrir,

Pelas luzes que se irrompem na madrugada.

 

Construo uma nova casa com bases sólidas;

Procuro a verdade em novos alicerces.

O anjo persiste em contentar-se com realidades sórdidas,

onde o seu brilho esmorece.