João Vitor

o que uma vez sonhou

batas as asas, meu caro amigo passarinho

voe pelo infinito azul

te apegas uma vez mais aquele velho sonho

lembras, passarinho?

outrora sonhavas com o inexplorado

o intangível

que fosses a primeira das aves a atingir,

por ingenuidade ou ciência,

o ponto onde os dois grandes céus azuis se encontravam

sonhavas com as estrelas e tentavas,

como um velocista,

bater aquelas que do além-céu caíam

sonhavas em tocar o sol

em dar uma volta inteira na lua

em rasgar os oceanos com o vento de suas asas

tu sonhavas, oh sim, sonhavas, meu caro amigo passarinho.

até que conhecestes o chão.

e de novo e outra vez, conforto achastes

ou assim pensara

te aprumaste num mundo que não o pertencia

e deixaste de sonhar

com asas enferrujadas, vôos não mais pudeste alçar.

penoso é teu caminhar, passarinho

pois para isso não fostes feito

fora criado para a infinitude do céu

para o bater-asas, livre

lindo, feito um véu

que se fechou

de novo e outra vez

tu devias voar, passarinho

voar alto, como quando sonhavas

mas não voais, meu caro amigo passarinho

não porque não podes, não…

mas por te apegares outra vez ao chão.