Miniconto Fábula
O Córrego do Vento e o Pé de Baru
No Córrego do Vento, onde a água desce fria mesmo no agosto mais seco, Teú encontrou a Sucuri deitada numa pedra chata.
— Cê tá gelada, Dona Sucuri — disse ele, sentando na beira.
— Água fria não te espanta?
A sucuri abriu um olho amarelo e riu sem som.
— Espanta quem não sabe esperar. A água fria me lembra que o Cerrado tem dois corações: um queima no sol, outro que guarda frio na terra. Eu durmo aqui pra não esquecer os dois.
Teú olhou pro pé de Baru que torto crescia ali do lado.
— E o Baru? Por que ele só dá fruto quando o tempo vira do seco pro molhado?
— Porque o Baru conversa com o clima.
Respondeu a sucuri, deslizando pro raso.
— Ele escuta o vento, sente a água fria lá embaixo, conta as luas. Se chover antes da hora, ele não floresce. Se demorar, ele guarda a semente. Sábio que nem véio do cerrado.
Teú quebrou um graveto e mexeu na água.
— Então o clima do serrado não é bagunça. É conversa. A chuva fala, o vento responde, o Baru anota, e a terra decide quando é hora.
— Isso — disse a sucuri, sumindo devagar na água fria.
— O problema é que homem fala sozinho. Acha que manda na conversa. Aí seca o córrego e culpa o céu.
Ficou só o som da água batendo na pedra e o cheiro de folha de Baru esquentando ao sol.
Teú ficou calado um tempo. Depois levantou, olhou pro céu e pro córrego, e disse baixo:
— Vou contar isso na reunião. Se o Baru sabe esperar, a gente também aprende.
Moral da fábula: No Cerrado, quem escuta a água, o vento e o Baru entende o tempo. Quem não escuta, seca junto com a terra.
Autor: Gino, Sinvaldo de Souza