Hoje o dia veste lã,
desses gelados e nublados...
e me deparei com uma lembrança...
Dessas que despertam desejos, vontades...
e me fazem reviver cada sensação com mais intensidade.
Me lembrei daquele dia...
Um dia como outro qualquer...
Tudo começou através de mensagens trocadas ao acaso.
Você com seu mistério, sua inteligência, daquelas pessoas fáceis de querer...
Mas sabe...
Não sei como tudo começou...
Eu te vi apenas uma vez.
Você parecia mais retraído, mais reservado.
Mas, nas entrelinhas das mensagens, havia algo que me provocava,
algo que me fazia imaginar que você também me desejava.
Talvez apenas naquele dia...
Eu podia ser tua amiga,
mas o desejo eu tinha.
Mesmo te vendo uma única vez,
há uns dez anos,
alguma coisa em você ficou guardada em mim.
Eu confesso...
Não sou de me entregar assim.
É difícil.
Mas fui encorajada a experimentar algo que nunca tinha feito.
Não sei se foi loucura...
Porque sempre gostei das paixões.
Sempre me envolvi emocionalmente antes de qualquer coisa.
Mas com você foi diferente...
Meu corpo queria experimentar o teu.
Queria sentir teu cheiro mais de perto,
teu toque, tua pele, teu calor.
Mas com certo cuidado,
e um pouco tímida...
Eu queria você.
Nem que fosse só uma vez.
Porque a curiosidade estava me consumindo aos poucos.
Eu queria sentir o sabor do teu beijo,
tua respiração, você em mim...
o arrepio que eu imaginava percorrendo meu corpo quando você me tocasse.
Eu queria dar e receber prazer.
Mas não sei realmente o que aconteceu.
Foi real?
Pensei no julgamento.
Pensei que homens testam, conseguem o que querem e depois desaparecem.
E eu não queria perder a amizade, ou que você nunca mais falasse comigo e depois me ignorasse.
Já perdi um amigo assim...
E perder um amigo me machucou...
Mas... nem ao certo sei se você me considera amiga...
Eu vou te falar...
Eu acreditava que existiam paixão e amor entre homem e mulher.
Hoje percebo que muitas vezes existem, sim, a atração, o desejo, a energia... a dopamina...
E você despertava tudo isso em mim.
E isso acaba, sim, fazendo a gente cometer algumas loucuras.
Minha curiosidade vinha atrelada ao desejo.
Desejo de um beijo demorado,
de uma massagem sem pressa,
de sentir sua mão percorrendo meu corpo devagar,
como quem descobre um segredo.
E, ainda assim, não consegui me soltar por completo.
Sair assim foi algo novo para mim.
Mas não pense que faço isso com qualquer pessoa.
Não sou assim.
Sou a mulher dos jantares demorados,
das conversas que atravessam a madrugada,
das taças de vinho,
dos olhares que falam mais que palavras.
Sou de um filme agarradinha num dia chuvoso,
de trocar carinho antes de trocar roupas.
Confesso que fiquei com medo do seu julgamento.
Mas aconteceu.
E foi bom.
Pena que eu estava tímida,
meio insegura, cansada...
Pena que o tempo foi tão curto.
Pena que não pudemos ir para outro lugar.
Tem lugares cuja energia é pesada, e depois carregamos essa energia, seja ela boa ou ruim...
Ah, e porque eu queria te ouvir falar mais.
Queria descobrir o que existia por trás daquele mistério.
Mas também queria sentir você sem tanta pressa.
Eu te desejei.
Desejei mais do que demonstrei.
Mais do que consegui dizer.
E espero que você tenha sentido isso.
Porque, mesmo com toda a timidez,
todo o receio e toda a insegurança...
Meu corpo já tinha te escolhido, já queria te experimentar antes mesmo que eu tivesse coragem de admitir.