ANTOLOGIA DE MINICONTO: A Conversa dos Peixes no Rio Baixo
(Uma fábula do Cerrado)
Nas águas quentes de setembro, quando o Rio Vermelho em Matrinchã encolhia e deixava só poças e pedras à mostra, o peixe Matrinxã de escamas prateadas subia contra a correnteza, resmungando:
— Ai, Arunanã! Todo ano é a mesma coisa. O rio vira fio d’água e a gente fica preso nesse lajeiro. As garças já sabem o caminho daqui de cor!
Do outro lado, lá em Aruanã, onde o Rio Vermelho deságua no Araguaia, o peixe Arunanã de boca grande boiava devagar na beira da areia. Ele respondeu com voz calma, que vinha carregada pela correnteza:
— Pois é, Matrinxã. Aqui embaixo também tá feio. O Araguaia baixa, as praias crescem, e a gente fica sem fundo pra fugir dos botes. Mas sabe o que meu avô dizia?
Matrinxã parou de bater o rabo e ouviu.
— Ele dizia que o rio baixo não é castigo, é aviso. Quando a água some, o cerrado respira. As raízes do buriti bebem o que sobrou, as tartarugas enterram os ovos na praia, e a gente aprende a ficar quieto e esperto.
— Quietinho eu não consigo — bufou Matrinxã —. Eu sou de pular corredeira, de rasgar a água! Com pouca água, até um lambari me enfrenta.
Arunanã riu, fazendo ondinhas:
— Pois é por isso que a gente conversa. Lá em cima, você guarda a memória das nascentes. Lá embaixo, eu guardo a memória do encontro com o Araguaia. Se um esquece, o outro lembra. Quando a chuva voltar em outubro, a gente sobe e desce levando a história do rio inteiro.
Matrinxã pensou um pouco. Olhou pro céu avermelhado de poeira e viu a primeira nuvem carregada vindo lá de longe.
— Então tá… enquanto o rio dorme, a gente conversa. E quando ele acordar, a gente nada junto de novo.
— Isso — disse Arunanã —. Porque rio que não conversa, seca por dentro antes de secar por fora.
E os dois ficaram ali, cada um na sua água baixa, trocando histórias até a chuva de outubro trazer o rio de volta.
Moral da história: Nas dificuldades, quem conversa guarda o caminho. A seca passa, mas a união entre quem vive o mesmo rio fica.
Autor: Gino, Sinvaldo de Souza