Francisco Claudio Claudio Gia

#Hexagrama do Berço e da Espada

#Hexagrama do Berço e da Espada

Claudio Gia, Macau RN, 06/06/2026

O calcanhar perfurado — gota rubra
que decifra o silêncio do cordão:
cada doença oculta se desdobra
em código, em cifra, em previsão.
No instante em que o recém-nascido chora,
já se inscreve o mapa da razão:
a triagem é a trincheira onde a aurora
trava a primeira guerra — a da cura, não da ação.

Mas hoje a História vira a sua página
para outro parto, outro grito inicial:
o desembarque sob a chuva plúmbea,
a areia tingida de sal mortal.
Ali, meninos feitos de coragem
saíam do mar como do ventre as feras,
e a Normandia, em fogo e quilate,
pariu o fim da noite às primaveras.

Duas margens de um mesmo parto humano:
o teste que antevê, o tanque que devasta.
Num pé, o diagnóstico quase arcano;
noutro, o espetáculo da pólvora que arrasta.
Mas o que nasce — seja a vida ou o combate —
sabe que o sangue, quando é bem vigiado,
vira remédio; quando o ódio o debate,
vira ferida aberta no passado.

Assim, 6 de junho duplamente
nos lembra que a saúde é a paz primeira.
Que cada um que chega ao mundo em frente
tem direito à luz, não à trincheira.
E do berço às falésias ensanguentadas,
o mesmo verbo insiste — frágil e potente:
se é pela vida que se dão as espadas,
a melhor guerra é aquela que não se sente.