Antes que a aurora aprendesse
a abrir as pálpebras do horizonte,
antes que os rios descobrissem
o caminho secreto do mar,
já havia você
sendo procurada por mim
nas páginas invisíveis da eternidade.
Não foi o acaso
quem acendeu as lâmpadas do encontro.
Há sementes que recebem do céu
a memória da floresta inteira,
e há almas que carregam,
desde o primeiro sopro do tempo,
a silenciosa vocação de se reconhecer.
Assim como o barro ansiava
pelas mãos do Oleiro,
assim como a terra sedenta
aguarda a visita da chuva,
também o meu coração humano
trazia em si uma antiga promessa:
a de encontrar seu olhar
onde sua luz me completaria.
Os sábios chamaram isso de destino.
Os profetas chamaram de aliança.
Os poetas, de mistério.
Mas talvez seja apenas o Amor,
essa força sem fronteiras,
que move os astros sem tocá-los
e conduz as marés
sem jamais prender-lhes os passos.
Pois o amor predestinado
não é uma corrente,
mas uma convergência.
Não é prisão,
mas caminho.
Não é posse,
mas reconhecimento.
Ele acontece como o retorno
de uma melodia esquecida,
quando a alma, ao ouvi-la,
recorda algo que nunca aprendeu
e, ainda assim, sempre soube.
Porque o nosso amor
não nasceu no instante do encontro.
O encontro foi apenas a revelação.
E então compreendemos
que amar não é conquistar um destino,
mas consentir nele.
É aceitar que algumas histórias
foram escritas com tinta de eternidade
muito antes que nossas mãos
aprendessem a virar as páginas.
E que há encontros
que não pertencem apenas ao tempo,
mas à própria arquitetura do sagrado,
onde cada coração é uma estrela
e cada estrela conhece,
desde o princípio,
a constelação à qual pertence.