Sezar Kosta

O NOSSO AMOR FOI ESCRITO ANTES DAS ESTRELAS

Antes que a aurora aprendesse

a abrir as pálpebras do horizonte,

antes que os rios descobrissem

o caminho secreto do mar,

já havia você

sendo procurada por mim

nas páginas invisíveis da eternidade.

 

Não foi o acaso

quem acendeu as lâmpadas do encontro.

Há sementes que recebem do céu

a memória da floresta inteira,

e há almas que carregam,

desde o primeiro sopro do tempo,

a silenciosa vocação de se reconhecer.

 

Assim como o barro ansiava

pelas mãos do Oleiro,

assim como a terra sedenta

aguarda a visita da chuva,

também o meu coração humano

trazia em si uma antiga promessa:

a de encontrar seu olhar

onde sua luz me completaria.

 

Os sábios chamaram isso de destino.

Os profetas chamaram de aliança.

Os poetas, de mistério.

Mas talvez seja apenas o Amor,

essa força sem fronteiras,

que move os astros sem tocá-los

e conduz as marés

sem jamais prender-lhes os passos.

 

Pois o amor predestinado

não é uma corrente,

mas uma convergência.

Não é prisão,

mas caminho.

Não é posse,

mas reconhecimento.

 

Ele acontece como o retorno

de uma melodia esquecida,

quando a alma, ao ouvi-la,

recorda algo que nunca aprendeu

e, ainda assim, sempre soube.

 

Porque o nosso amor

não nasceu no instante do encontro.

O encontro foi apenas a revelação.

 

E então compreendemos

que amar não é conquistar um destino,

mas consentir nele.

 

É aceitar que algumas histórias

foram escritas com tinta de eternidade

muito antes que nossas mãos

aprendessem a virar as páginas.

 

E que há encontros

que não pertencem apenas ao tempo,

mas à própria arquitetura do sagrado,

onde cada coração é uma estrela

e cada estrela conhece,

desde o princípio,

a constelação à qual pertence.