Sunflower

Querido Vazio

Há tempos um vazio caminha ao meu lado.

Não sei de onde veio, nem em qual encruzilhada silenciosa decidiu acompanhar meus passos. Por mais que o interrogue, não me responde. E por mais que procure compreender-lhe a origem, mais distante me parece seu princípio. Sei apenas que não vem só.

Traz consigo os dias frios, as manhãs sem cor e uma névoa discreta que repousa sobre tudo o que vejo. Meus dias tornaram-se invernos prolongados.

E, pouco a pouco, vejo-me descendo por um poço sem fundo, onde as paredes são feitas de ecos e as horas escorrem como água escura entre os dedos.

 

Busquei abrigo em muitos lugares. Acendi pequenas lanternas. Colecionei instantes de alegria.

Mas nada parece alcançar a profundidade deste abismo silencioso que carrego no peito.

Então pergunto aos ventos:

O que me falta? Qual estrela se apagou em meu céu? Qual jardim esqueci de regar?

Pois sinto minha alma vagando como embarcação perdida num mar sem margens.

Às vezes temo estar me desfazendo.

Como tinta antiga sob a chuva. Como carta esquecida pelo tempo.

E desejo partir para muito longe. Tão longe que nem minhas próprias sombras consigam encontrar-me.

Mas o vazio permanece. Sentado ao meu lado.

Paciente.

Silencioso.

Como um velho conhecido.

 

Por isso lhe dirijo estas palavras:

Meu querido e antigo companheiro, se algum afeto existe em teu silêncio, tem piedade de mim ao menos uma vez. Permite que eu veja novamente a beleza escondida nas pequenas coisas. Permite que o sol atravesse as cortinas deste longo inverno. Pois desejo viver de maneira bonita. Desejo colher flores sem esperar pelos espinhos. Desejo olhar o horizonte sem receio da tempestade. E peço apenas isto: não me ofereças mais um amargo talvez. Dá-me, por uma única vez, a delicadeza de uma certeza.

 

— Sunflower

São Paulo, 05 de Junho de 2025.

 

© Todos os direitos reservados.