#A Hóstia Partida e a Criança sem Mesa
#Claudio Gia, Macau, RN, 04/062026
No dia em que o Corpo se oferece em pão
e o sangue se esconde no vinho da cruz
uma criança de mão vazia não comunga.
O altar é dourado, o incenso é perfumado,
mas a fome não canta aleluia.
Corpus Christi. O milagre repetido
de transformar farinha em presença divina.
Fora dos templos, a farinha é pouca,
a presença é escassa,
o milagre é um punho fechado sobre o trigo.
Celebram a carne de Deus
quem deixa a carne dos pequenos
tombar sob o chicote do salário,
do afeto negado, do quarto sem luz,
do silêncio imposto à voz que ainda ensaia o choro.
Diz o Salmo: Glorifica o Senhor, Jerusalém.
Mas que glória há numa cidade
onde a criança é vítima antes de ser verso,
onde a agressão mora no gesto cotidiano,
no orçamento que corta o leite,
na escola sem teto,
no Estado que reza de joelhos
e governa de costas?
O maná no deserto ao menos caía do céu.
Hoje, o que cai sobre o pequeno
é a mão do que devia proteger,
é o abandono legal,
é a estatística que sobe
enquanto o sino da igreja desce.
Eu, que não creio no corpo transubstanciado
mas creio na carne real da criança,
digo:
eucaristia é redistribuir o pão.
Comunhão é sentar à mesma mesa
quem produz e quem vive do produzido.
Sacerdócio é defender
que nenhuma criança seja hóstia
de um sistema que a consome
sem jamais a declarar sagrada.
Que se rasguem as vestes litúrgicas
se for preciso vestir o frio do menino.
Que se derrubem os cálices de ouro
para encher de água limpa o copo do nordestino.
E que neste dia — Corpus Christi e dia da dor infantil —
a esquerda que pensa e a fé que caminha
se encontrem não no altar,
mas na trincheira.
Ali onde o pão é partido de verdade:
em partes iguais,
em justiça real,
sem que nenhuma criança
precise morrer para virar símbolo.