Carlos Herik B. Batista

Presença

 

Há dias em que o mundo desacelera.

Sem aviso.

Sem motivo aparente.

Como se o próprio tempo,

cansado de correr,

decidisse respirar mais fundo.

E é nesses instantes

que tudo se torna mais nítido.

O vento encontra seu caminho.

A luz repousa exatamente onde deveria.

E a criação inteira parece sussurrar

uma verdade antiga

que esteve ali o tempo todo.

Existe uma beleza que não pede atenção.

Não se impõe.

Não faz alarde.

Não precisa convencer ninguém.

Apenas existe.

Serena.

Constante.

Como uma melodia escondida

sustentando a canção inteira

sem jamais ocupar o centro dela.

E, por vezes,

essa beleza ganha forma humana.

Não da maneira que o mundo costuma admirar.

Não pelas aparências.

Não pelos aplausos.

Mas de um jeito mais raro.

Um jeito manso.

Como quem carrega dentro de si

uma luz tranquila,

uma fidelidade silenciosa,

uma verdade que não necessita ser anunciada.

É curioso perceber

como algumas pessoas não chegam mudando tudo.

Não ocupam todos os espaços.

Não exigem ser vistas.

Elas apenas permanecem.

E, sem perceber,

tornam o ambiente mais leve.

Mais harmonioso.

Mais humano.

Como mãos delicadas

afinando um instrumento antigo.

Como uma nota exata

encontrando seu lugar na música.

Há algo de profundamente belo nisso.

Porque em meio à pressa,

às aparências

e ao ruído constante do mundo,

existem almas que simplesmente são.

E talvez seja justamente isso

que as torna tão raras.

Há uma beleza que não se aprende.

Não se fabrica.

Não se imita.

Ela nasce de um lugar mais alto

e encontra morada

naqueles que escolhem,

dia após dia,

caminhar com verdade,

com leveza,

com temor,

com graça.

E quando percebemos isso,

algo dentro de nós silencia.

Não para por falta de palavras.

Mas por respeito.

Como quem contempla um pôr do sol.

Como quem escuta uma canção

que não deseja ver terminar.

Talvez por isso

algumas inspirações não venham de longe.

Não nasçam de feitos grandiosos.

Nem de coisas extraordinárias.

Às vezes elas chegam discretamente.

Quietas.

Serenas.

Em forma de presença.

E então escrevemos.

Não para explicar.

Não para possuir.

Não para revelar segredos.

Mas porque certas belezas,

quando finalmente reconhecidas,

pedem para viver também

em palavras.

E isso,

por si só,

já é uma forma de gratidão.

 

Herik Batista, 3 de junho, 2026