Francisco Claudio Claudio Gia

#Elegia das Rodas e do Chão que Ainda Respira

#Elegia das Rodas e do Chão que Ainda Respira

Claudio Gia, Macau RN, 03/05/2026

Poema:

No terceiro dia do sexto mês,
a bicicleta desenha uma elipse
sobre o asfalto quente —
não é fuga, é memória do movimento lento
que ensina a pressa a ser mais leve.

O sertão não aprende com cartilha:
aprende com a caatinga que rebrota
sem pedir licença à seca.
Educação ambiental, portanto,
é menos folheto e mais mão na terra
— é a criança obesa redescobrindo o taco
no quintal sem calçada.

E os profissionais de recursos humanos,
administradores da comunidade social,
deveriam reler Graciliano:
gente não se gerencia como estoque;
gente se irriga como canteiro
na beira do rio Piranhas-Açu.

Macau me ensinou que o mangue
é mais sábio que qualquer organograma.
O caranguejo anda de lado
mas sempre chega no seu buraco.
Nós, de bicicleta, vamos em frente
— mas também em círculo,
porque o chão é redondo
e toda volta é um recomeço.

No fim, três de junho é só um nome.
O que fica é a corrente girando,
o triângulo batendo no mesmo compasso,
e o coral (anônimo, viral, contraditório)
que insiste em cantar,
mesmo desafinado,
“a terra ainda é nossa se a gente cuidar”.