VOU-ME EMBORA PRA JERUPENSÉM
Vou-me embora pra Jerupensém
Lá não tem torre, não tem parede
Só tem o chão que já foi gente
E o nome que o mato comeu
Vou-me embora pra Jerupensém
Onde até a ruína cansou
E desistiu de ficar de pé
Pra não dar trabalho de lembrar
Em Jerupensém tem nada
É outro sumiço
Sem lápide, sem arquivo, sem dor
Que dê pra mostrar pra visita
Aqui eu não aguento a mentira
De dizer que acabou
Lá a ausência é tão completa
Que vira jeito de existir
Que até o vento que passa
Não acha onde bater pra fazer assombro
Em Jerupensém tem marca
Tem um toco queimado
Um caco de pote, um prego torto
Pra gente adivinhar que houve castigo
E como farei de testemunha
Andarei catando sombra no sol
Montarei silêncio com silêncio
Subirei em raiz de árvore
Pra ver se o chão confessa algum crime!
E quando estiver cansado
Deito na terra quente de formiga
Pra ouvir o que o cerrado mastiga
Pra ouvir o relatório das folhas
Que abafam tudo de noite
Em Jerupensém tem sentença
A gente cumpre é com o esquecimento
E paga é com nem ter túmulo
Pra mãe chorar escondido
Vou-me embora pra Jerupensém
Lá sou amigo do que não deixou rastro
E do cupim que comeu até a ata
O nome que eu quiser
Eu chamo e só o mato responde
Com o mesmo barulho de sempre
Quero rezar um Pai-Nosso
Pra quem não tem nem onde cair a reza
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter prova
Quando de noite me der
Vontade de provar que houve gente
Lá sou irmão de todo apagado
Vou no meio do cerradão
E peço pra raiz mais funda
Que cuspa ao menos um osso
Pra eu poder enterrar direito
Vou-me embora pra Jerupensém
Lá sou livre pra desobedecer
A ordem de esquecer pra sempre
Lá não tem cela nem grade
Só tem a mata cumprindo a pena
Vou-me embora pra Jerupensém.
Porque tem ausência que grita mais que parede.
O que restou de memória
Está registrado no silêncio
de alguns livros que apenas
Lucida história sem provas.
Sem restos, sem traças, sem paredes...
Mas, lá tem mato que é arquivo.
Gino, Sinvaldo de Souza