Há algo muito curioso na saudade.
Ela não existe nas pedras,
nem nos rios,
nem nas estrelas.
Uma montanha não sente falta
do inverno que passou.
O mar não chora
pelas ondas de ontem.
Mas nós, sim.
Nós carregamos dentro do corpo
uma estranha capacidade
de continuar habitando
lugares que já acabaram.
Talvez por isso
a palavra só tenha nascido em português.
Porque não é apenas ausência.
Ausência é uma cadeira vazia.
Saudade é a marca que permanece
na madeira
muito depois que alguém se levantou.
É uma espécie de permanência invisível.
Uma prova de que o tempo
nunca vence completamente.
Porque aquilo que realmente nos atravessa
recusa-se a obedecer aos calendários.
Continua vivo.
No cheiro de chuva sobre a terra.
Numa música esquecida.
Num sabor que atravessa décadas
sem pedir licença.
Nas brincadeiras de infância.
Às vezes ela chega suave,
como um pássaro pousando na janela.
Outras vezes,
abre a porta sem bater
e espalha fotografias pelo chão da alma.
Então nos perguntamos:
Por que existe saudade?
Por que a vida não nos permite simplesmente seguir,
como seguem os rios,
sem olhar para trás?
Talvez porque esquecer completamente
seja uma forma de morte.
E recordar,
mesmo quando dói,
seja uma maneira secreta
de continuar vivo e amando.
Não apenas pessoas.
Mas versões de nós mesmos.
A criança que desapareceu.
A rua que mudou de nome.
O amigo que seguiu outro caminho.
A avó cuja voz ainda mora
em algum cômodo da memória.
Sentimos saudade
porque somos os únicos seres
capazes de perceber
que tudo é passageiro.
E, ainda assim,
amar.
Talvez seja esse o preço.
Ou talvez seja o milagre.
Porque a saudade não nasce
daquilo que perdemos.
Ela nasce daquilo que foi tão belo,
tão raro,
tão profundamente vivo,
que nem o tempo conseguiu levar embora.
E talvez seja por isso
que ela às vezes doa tanto:
não porque algo partiu,
o tempo passou,
ou a vida mudou,
mas porque uma parte de nós
reconhece e valoriza aqueles momentos significativos da vida.