Amanda S. Moraes

A invenção da saudade

Há algo muito curioso na saudade.

 

Ela não existe nas pedras,

nem nos rios,

nem nas estrelas.

 

Uma montanha não sente falta

do inverno que passou.

O mar não chora

pelas ondas de ontem.

 

Mas nós, sim.

 

Nós carregamos dentro do corpo

uma estranha capacidade

de continuar habitando

lugares que já acabaram.

 

Talvez por isso

a palavra só tenha nascido em português.

 

Porque não é apenas ausência.

 

Ausência é uma cadeira vazia.

 

Saudade é a marca que permanece

na madeira

muito depois que alguém se levantou.

 

É uma espécie de permanência invisível.

 

Uma prova de que o tempo

nunca vence completamente.

 

Porque aquilo que realmente nos atravessa

recusa-se a obedecer aos calendários.

 

Continua vivo.

 

No cheiro de chuva sobre a terra.

Numa música esquecida.

Num sabor que atravessa décadas

sem pedir licença.

Nas brincadeiras de infância.

 

Às vezes ela chega suave,

como um pássaro pousando na janela.

 

Outras vezes,

abre a porta sem bater

e espalha fotografias pelo chão da alma.

 

Então nos perguntamos:

 

Por que existe saudade?

 

Por que a vida não nos permite simplesmente seguir,

como seguem os rios,

sem olhar para trás?

 

Talvez porque esquecer completamente

seja uma forma de morte.

 

E recordar,

mesmo quando dói,

seja uma maneira secreta

de continuar vivo e amando.

 

Não apenas pessoas.

 

Mas versões de nós mesmos.

 

A criança que desapareceu.

A rua que mudou de nome.

O amigo que seguiu outro caminho.

A avó cuja voz ainda mora

em algum cômodo da memória.

 

Sentimos saudade

porque somos os únicos seres

capazes de perceber

que tudo é passageiro.

 

E, ainda assim,

amar.

 

Talvez seja esse o preço.

 

Ou talvez seja o milagre.

 

Porque a saudade não nasce

daquilo que perdemos.

 

Ela nasce daquilo que foi tão belo,

tão raro,

tão profundamente vivo,

 

que nem o tempo conseguiu levar embora.

 

E talvez seja por isso

que ela às vezes doa tanto:

 

não porque algo partiu,

o tempo passou,

ou a vida mudou, 

 

mas porque uma parte de nós

reconhece e valoriza aqueles momentos significativos da vida.