Francisco Claudio Claudio Gia

#O Silêncio das Águas Que Não Voltam

#O Silêncio das Águas Que Não Voltam

Claudio Gia, Macau, RN – 02/06/2025

Nas veias secas do Piancó-Piranhas-Açu,
o sangue da terra já não pulsa em liberdade.


Outrora serpente viva, agora acorrentada
por muros de concreto e vontades miúdas, a água que era vida tornou-se refém de cálculos frios e promessas vazias.


Onde o cangulo dançava entre corais de pedra, resta apenas o eco do anzol vazio.

O saragasso, antigo capim do mar,
desaparece como memória de quem não quer lembrar.

As praias outrora fartas de escama prateada, hoje são desertos molhados de esquecimento.

O estuário, porta sagrada entre rio e oceano, recebe apenas um suspiro salgado.

A montante, as barragens engolem o futuro, e vomitam escassez para quem vive abaixo.

Não há recarga. Não há piedade.
A lei escrita vira letra morta
quando o lucro fala mais alto que a consciência.

Ó homem instruído, que celebras no dois de junho, a Educação, a Itália e as fogueiras juninas, por que teus olhos não veem o que o rio chora?

A natureza não pede licença poética:
ela cobra em silêncio, com juros de extinção.

Que o Dia Nacional da Educação
não seja apenas data no calendário,
mas chama que ilumine a ignorância
de quem destrói o berço para enriquecer o túmulo.

Que o litoral norte, o vale do Açu e Mossoró, não se tornem epitáfios de uma terra que um dia

teve peixes, mangues e esperança fluindo rumo ao mar.

Porque quando a última água doce
deixar de beijar o sal do oceano,
não restará poesia que justifique
a estupidez humana.


Que o rio volte a ser rio.
Que o homem volte a ser homem.
Antes que só sobre o vento
cantando entre conchas vazias.