#O Silêncio das Águas Que Não Voltam
Claudio Gia, Macau, RN – 02/06/2025
Nas veias secas do Piancó-Piranhas-Açu,
o sangue da terra já não pulsa em liberdade.
Outrora serpente viva, agora acorrentada
por muros de concreto e vontades miúdas, a água que era vida tornou-se refém de cálculos frios e promessas vazias.
Onde o cangulo dançava entre corais de pedra, resta apenas o eco do anzol vazio.
O saragasso, antigo capim do mar,
desaparece como memória de quem não quer lembrar.
As praias outrora fartas de escama prateada, hoje são desertos molhados de esquecimento.
O estuário, porta sagrada entre rio e oceano, recebe apenas um suspiro salgado.
A montante, as barragens engolem o futuro, e vomitam escassez para quem vive abaixo.
Não há recarga. Não há piedade.
A lei escrita vira letra morta
quando o lucro fala mais alto que a consciência.
Ó homem instruído, que celebras no dois de junho, a Educação, a Itália e as fogueiras juninas, por que teus olhos não veem o que o rio chora?
A natureza não pede licença poética:
ela cobra em silêncio, com juros de extinção.
Que o Dia Nacional da Educação
não seja apenas data no calendário,
mas chama que ilumine a ignorância
de quem destrói o berço para enriquecer o túmulo.
Que o litoral norte, o vale do Açu e Mossoró, não se tornem epitáfios de uma terra que um dia
teve peixes, mangues e esperança fluindo rumo ao mar.
Porque quando a última água doce
deixar de beijar o sal do oceano,
não restará poesia que justifique
a estupidez humana.
Que o rio volte a ser rio.
Que o homem volte a ser homem.
Antes que só sobre o vento
cantando entre conchas vazias.