A minha Aurélia
Eu li, Senhora, ainda moço,
Naquelas páginas de escola.
Aurélia me marcou o peito
Como quem deixa uma espora.
Cresci com ela na cabeça:
Altiva, firme, sem perdão.
Mulher que comprava o destino
E cobrava amor na mão.
Anos depois, numa esquina,
A vida me pregou uma peça.
Vi Lucimar vindo em minha direção
E o livro virou profecia.
Não era a vingança de Aurélia,
Nem o dote sobre a mesa.
Era o mesmo olhar de reina
Que não se curva à fraqueza.
José de Alencar me avisou,
Mas eu só entendi ali:
Que um dia a literatura
Ia sair do papel pra mim.
Minha Aurélia não tem Seixas
Pra consertar ou comprar.
Tem a mim, que desde jovem
Já sabia em quem se encantar.
Li o livro, achei que era enredo.
Vi Lucimar, vi que era verdade.
E desde então eu entendo:
Todo romance de mocidade
É só ensaio pro momento
Em que a vida vira saudade.
Autor: Sinvaldo Gino