Dizem que os poetas nascem do silêncio,
que escritores transformam feridas em tinta,
que compositores arrancam melodias
das ruínas que carregam no peito.
Eu cresci entre esses livros,
mas nunca entre aquilo que eu ansiava.
Minha infância foi um quarto vazio,
onde as palavras que ouvi
não eram histórias,
mas sentenças.
\"Não coma.\"
\"Não pode isso.\"
\"Não pode aquilo.\"
E, entre tantos nãos,
ninguém percebeu
que me faltava o direito de existir.
Talvez seja verdade,
talvez eu nunca tenha aprendido
quem sou.
Como descobrir uma identidade
quando se cresce sufocada,
dobrada em pedaços,
pequena demais para sonhar?
E aos doze anos,
a infância morreu.
Não em um acidente,
não em uma tragédia anunciada.
Morreu em silêncio.
Virei mãe de um filho que não era meu,
carregando nos ombros frágeis
responsabilidades pesadas demais
para uma criança que mal conhecia o mundo.
Fui criada atrás de portas fechadas,
e quando finalmente alcancei os vinte e dois,
disseram que eu não podia viver.
Que me faltava maturidade.
Que ironia cruel.
Fui velha quando precisava ser criança,
e agora sou tratada como criança
quando preciso aprender a viver.
Ninguém fala sobre isso.
Ninguém fala sobre o peso.
Sobre o cansaço.
Sobre a dor que se espalha pelas costelas
como vidro quebrado.
Ninguém fala sobre as noites
em que a vontade de desaparecer
parece mais acolhedora
do que permanecer.
Então eu sorrio.
Porque é isso que esperam.
Um sorriso costurado à força,
como uma máscara bonita
sobre uma ferida aberta.
E talvez por isso ninguém perceba.
Porque dizem que sou linda.
Falam dos meus olhos,
da cor exata do céu
quando não há nuvens.
Admiram meu rosto,
meu sorriso treinado,
a delicadeza que inventaram para mim.
Sou mostrada ao mundo
como um troféu sobre uma prateleira,
algo bonito o suficiente para ser exibido,
mas não importante o bastante para ser compreendido.
E enquanto elogiam a cor dos meus olhos,
ninguém enxerga as tempestades que eles escondem.
Enquanto admiram o céu que dizem existir em mim,
ninguém percebe os relâmpagos.
Ninguém vê os destroços.
Porque é mais fácil amar a imagem
do que conhecer a pessoa.
Mais fácil admirar a moldura
do que tocar a ferida.
E assim continuo sendo aquilo que veem:
bonita,
silenciosa,
educada.
Enquanto por dentro
vou desaparecendo devagar.
Com uma personalidade que muitos chamam de fraca,
porque aprendi a ceder antes mesmo de pedir.
Dizem que é fácil montar nas minhas costas.
Fácil me convencer.
Fácil me usar.
Fácil abandonar em mim
os pesos que ninguém quer carregar.
Porque existe em mim
uma fome antiga.
Não de comida.
Mas de amor.
Uma necessidade desesperada
de ser escolhida,
de ser vista,
de ser suficiente.
E talvez seja isso
que mais machuca.
Não foram os gritos.
Não foram as cobranças.
Não foram os anos roubados.
Foi perceber que passei a vida inteira
tentando merecer um amor
que deveria ter sido meu
desde o começo.
Passei anos recolhendo migalhas de afeto
como quem recolhe estrelas caídas,
acreditando que qualquer brilho
era melhor do que a escuridão.
Mas algumas ausências
crescem junto conosco.
Criam raízes.
Habitam os ossos.
E nos acompanham
mesmo quando aprendemos a sorrir.
Hoje, quando olho para o espelho,
vejo os olhos da cor do céu
que tantos admiram.
Mas vejo também
a criança esquecida atrás deles.
A menina que nunca encontrou abrigo.
A jovem que continua esperando
que alguém a enxergar
além da beleza,
além do sorriso,
além daquilo que pode ser exibido.
E às vezes me pergunto
quantas versões de mim morreram
para que esta sobrevivesse.
Quantos sonhos ficaram pelo caminho.
Quantas lágrimas secam sozinhas.
Quantas vezes desapareci
sem que ninguém notasse.
E ainda assim,
mesmo quebrada,
continuo escrevendo.
Porque talvez seja isso que os sobreviventes fazem.
Transformam cicatrizes em versos.
Fazem morada na própria dor.
E deixam nas páginas
aquilo que nunca conseguiram dizer em voz alta.
Sou apenas um simples traço perdido,
uma linha torta
na margem da história de alguém,
uma nota triste
esquecida entre silêncios.
Mas talvez,
se o corajoso que ler até o fim,
consiga encontrar
entre as minhas ruínas
a prova de que existi.
Uma pequena grande mulher
Que anseia por viver.
Ou apenas um traço obscuro
que deseje parar de sofrer.