Há uma casa dentro de ti
que nunca fecha as janelas.
E toda vez que o vento chama teu nome,
vejo teus olhos partirem
antes mesmo dos teus passos.
Eu sou um cais à espera,
enquanto teus barcos retornam
sempre ao mesmo porto.
Não invejo as raízes
que te prendem à terra;
mas, às vezes,
sinto que sou apenas uma estação
na viagem de um trem
que nunca deixou sua origem.
Há um rio entre nós,
e ele nasce longe,
em terras que não conheço.
Quando suas águas se revoltam,
transbordam sobre nossos campos,
arrastando flores,
silêncios
e promessas.
Queria ser horizonte,
mas me torno neblina,
porque teu sol ainda se inclina
para o quintal de ontem.
E eu,
feito jardim paciente,
espero a primavera
de um amor que floresça inteiro.
Não te peço que cortes as raízes.
Peço apenas
que aprendas a crescer.
Porque árvores também amam a terra,
mas ainda assim
erguem seus galhos para o céu.