Carlos Herik B. Batista

Pequeno Tratado Poético Sobre Amar

O amor vem manso, feito uma brisa calma

Que penteia as folhas do ipê no quintal,

Traz no olhar um lume de coisa sagrada

E nos lábios a prece do bem e do mal.

 

Ele não pede licença ao relógio

Nem consulta os alfarrábios do destino,

Simplismente acontece, qual alvorada

Que rompe a noite sem pedir caminho.

 

Vem às vezes em forma de carta tardia

Com caligrafia torta e perfume de jasmin,

Outras vezes chega sem nome nem rosto,

Só um pressentimento dizendo \"é por aqui\".

 

Há um amor que é menino descalço

Correndo solto no cais da memória,

Riscando nomes na areia do tempo

Antes que a maré apague a história.

 

Há outro amor que é velho e sereno,

De fala mansa, de gesto contido,

Que senta na varanda da tarde

E sorri do que foi e do que não foi vivido.

 

O amor também é ausência que dói

Como saudade de coisa que ainda não veio,

É fome de abraço no frio da alma

E silêncio que grita no peito alheio.

 

É o amor carnal, febril, indomável

Que incendeia o corpo e turva a razão,

Que faz do toque uma oração profana

E do suspiro um cântico de perdição.

 

Mas há o amor que é rito e ofício,

Que acorda cedo e faz café ralo,

Que aprende a amar nos dias difíceis

Quando o mundo pesa feito um fardo.

 

Esse amor não tem lira nem versos fáceis,

Não vive de juras nem de luar,

Ele se escreve na poeira dos dias

E se assina no verbo ficar.

 

O amor é pássaro sem geografia,

Migra de peito em peito sem avisar,

Ora pousa em promessas eternas,

Ora foge com medo de se enraizar.

 

É amante, é amigo, é abrigo, é ferida,

É riso frouxo e pranto contido,

É porto seguro em noite de tormenta

E nau à deriva em mar proibido.

 

Amor é quando o outro vira espelho

E a gente se vê mais do que é,

Quando o erro alheio vira ternura

E a falha do outro nos ensina fé.

 

É quando o tempo perde o compasso

E o agora se alonga em eternidade,

Quando dois corações desafinam juntos

E chamam isso de felicidade.

 

Amor é reza sem igreja nem santo,

É milagre sem bula nem explicação,

É Deus passeando no corpo no corpo do homem

E o homem tropeçando na própria salvação.

 

Há um amor que é transcêndencia pura,

Que não pede posse nem condição,

Que ama sem nome, sem rosto, sem corpo,

Só pela sacralidade da criação.

 

Esse amor mora em todo gesto mínimo:

No pão repartido, no perdão tardio,

No copo d\'água oferecido ao estranho

E no afeto guardado em silêncio frio.

 

O amor é verbo que nunca se conjuga

No tempo exato que a gente quer,

Ele sempre chega cedo demais

Ou tarde demais para quem espera fé.

 

Mas quando chega, desordena tudo:

A lógica, o medo, o mapa e o chão,

E a gente aprende que amar é cair

Sem garantia de ressurreição.

 

Ainda assim, a gente ama,

Porque amar é o único luxo do pobre,

É a única herança que o tempo respeita

E a única morte da qual se sobrevive

 

Amar é aceitar o risco do abismo

Com um sorriso meio sem jeito,

É apostar o infinito num gesto infinito

E morar no outro sem escritura no peito.

 

O amor também é perda anunciada,

É despedida ensaiada desde o início,

É plantar jardim sabendo de antemão

Que o inverno virá cobrar seu tributo.

 

É segurar uma mão que vai embora

Como quem segura um punhado de vento,

É sorrir para não morrer de tristeza

E chamar de maturidade o sofrimento.

 

O amor é essa contradição viva:

Quer durar para sempre, mas nasce mortal,

Quer ser eterno, mas mora no instante

E se desfaz na poeira do real.

 

Há amores que são tempestade breve

E outros que são garoa persistente,

Uns derrubam árvore do coração,

Outros regam raízes lentamente.

 

Há amores que salvam sem prometer céu,

E outros que afundam com falsa redenção,

Uns são pão quente na mesa da fome,

Outros são vinho que embriaga a razão.

 

O amor também é egoísmo disfarçado

De lirismo, entrega e boa intenção,

É querer o outro para nos preencher

E chamar dependência de paixão.

 

Mas há amor que se despoja de si,

Que ama livre, sem jaula nem rédea,

Que prefere perder do que aprisionar

E chama renúncia de comédia.

 

Amar é aprender a dizer adeus

Sem matar dentro da gente o querer,

É deixar o outro partir inteiro

E ainda assim permanecer.

 

O amor é escola sem diploma,

Sem currículo, sem direção,

Onde a dor é mestra severa

E a ternura, lição.

 

É reprovar no orgulho repetidas vezes

Até aprender a humildade do chão,

É perder quem se ama por teimosia

E ganhar solidão por promoção.

 

O amor é arte sem técnica exata,

É improviso, tropeço e invenção,

É desafinar bonito na vida

E chamar erro de canção.

 

É escrever cartas que nunca serão lidas,

É pedir perdão tarde demais,

É dizer \"fica\" quando já é tarde

E sorrir quando tudo dói mais.

 

No amor, a gente vira estrangeiro

No próprio território do peito,

Tudo que era certo vira dúvida

E tudo que era simples vira enredo.

 

E mesmo assim, amor meu

Mesmo cansado, traído, descrente,

A gente insiste em amar de novo

Como quem insiste em ser gente.

 

Porque amar é o último gesto

De rebeldia contra o nada,

É dizer \"eu creio\" sem dogma

Numa existência desalmada.

 

Amar é um ato metafísico

Num mundo que só crê no visível,

É plantar eternidade em carne

E chamar isso de possível.

 

No fim, quando a voz se calar,

Quando o nome virar pó na memória,

Quando o corpo devolver à terra

O empréstimo breve da história,

 

Vai restar apenas esse sopro antigo

Que atravessa o tempo e a razão:

um rumor de ternura infinita

Que chamamos, em silêncio: amor...

 

Herik Batista, 31 de maio, 2026