O amor vem manso, feito uma brisa calma
Que penteia as folhas do ipê no quintal,
Traz no olhar um lume de coisa sagrada
E nos lábios a prece do bem e do mal.
Ele não pede licença ao relógio
Nem consulta os alfarrábios do destino,
Simplismente acontece, qual alvorada
Que rompe a noite sem pedir caminho.
Vem às vezes em forma de carta tardia
Com caligrafia torta e perfume de jasmin,
Outras vezes chega sem nome nem rosto,
Só um pressentimento dizendo \"é por aqui\".
Há um amor que é menino descalço
Correndo solto no cais da memória,
Riscando nomes na areia do tempo
Antes que a maré apague a história.
Há outro amor que é velho e sereno,
De fala mansa, de gesto contido,
Que senta na varanda da tarde
E sorri do que foi e do que não foi vivido.
O amor também é ausência que dói
Como saudade de coisa que ainda não veio,
É fome de abraço no frio da alma
E silêncio que grita no peito alheio.
É o amor carnal, febril, indomável
Que incendeia o corpo e turva a razão,
Que faz do toque uma oração profana
E do suspiro um cântico de perdição.
Mas há o amor que é rito e ofício,
Que acorda cedo e faz café ralo,
Que aprende a amar nos dias difíceis
Quando o mundo pesa feito um fardo.
Esse amor não tem lira nem versos fáceis,
Não vive de juras nem de luar,
Ele se escreve na poeira dos dias
E se assina no verbo ficar.
O amor é pássaro sem geografia,
Migra de peito em peito sem avisar,
Ora pousa em promessas eternas,
Ora foge com medo de se enraizar.
É amante, é amigo, é abrigo, é ferida,
É riso frouxo e pranto contido,
É porto seguro em noite de tormenta
E nau à deriva em mar proibido.
Amor é quando o outro vira espelho
E a gente se vê mais do que é,
Quando o erro alheio vira ternura
E a falha do outro nos ensina fé.
É quando o tempo perde o compasso
E o agora se alonga em eternidade,
Quando dois corações desafinam juntos
E chamam isso de felicidade.
Amor é reza sem igreja nem santo,
É milagre sem bula nem explicação,
É Deus passeando no corpo no corpo do homem
E o homem tropeçando na própria salvação.
Há um amor que é transcêndencia pura,
Que não pede posse nem condição,
Que ama sem nome, sem rosto, sem corpo,
Só pela sacralidade da criação.
Esse amor mora em todo gesto mínimo:
No pão repartido, no perdão tardio,
No copo d\'água oferecido ao estranho
E no afeto guardado em silêncio frio.
O amor é verbo que nunca se conjuga
No tempo exato que a gente quer,
Ele sempre chega cedo demais
Ou tarde demais para quem espera fé.
Mas quando chega, desordena tudo:
A lógica, o medo, o mapa e o chão,
E a gente aprende que amar é cair
Sem garantia de ressurreição.
Ainda assim, a gente ama,
Porque amar é o único luxo do pobre,
É a única herança que o tempo respeita
E a única morte da qual se sobrevive
Amar é aceitar o risco do abismo
Com um sorriso meio sem jeito,
É apostar o infinito num gesto infinito
E morar no outro sem escritura no peito.
O amor também é perda anunciada,
É despedida ensaiada desde o início,
É plantar jardim sabendo de antemão
Que o inverno virá cobrar seu tributo.
É segurar uma mão que vai embora
Como quem segura um punhado de vento,
É sorrir para não morrer de tristeza
E chamar de maturidade o sofrimento.
O amor é essa contradição viva:
Quer durar para sempre, mas nasce mortal,
Quer ser eterno, mas mora no instante
E se desfaz na poeira do real.
Há amores que são tempestade breve
E outros que são garoa persistente,
Uns derrubam árvore do coração,
Outros regam raízes lentamente.
Há amores que salvam sem prometer céu,
E outros que afundam com falsa redenção,
Uns são pão quente na mesa da fome,
Outros são vinho que embriaga a razão.
O amor também é egoísmo disfarçado
De lirismo, entrega e boa intenção,
É querer o outro para nos preencher
E chamar dependência de paixão.
Mas há amor que se despoja de si,
Que ama livre, sem jaula nem rédea,
Que prefere perder do que aprisionar
E chama renúncia de comédia.
Amar é aprender a dizer adeus
Sem matar dentro da gente o querer,
É deixar o outro partir inteiro
E ainda assim permanecer.
O amor é escola sem diploma,
Sem currículo, sem direção,
Onde a dor é mestra severa
E a ternura, lição.
É reprovar no orgulho repetidas vezes
Até aprender a humildade do chão,
É perder quem se ama por teimosia
E ganhar solidão por promoção.
O amor é arte sem técnica exata,
É improviso, tropeço e invenção,
É desafinar bonito na vida
E chamar erro de canção.
É escrever cartas que nunca serão lidas,
É pedir perdão tarde demais,
É dizer \"fica\" quando já é tarde
E sorrir quando tudo dói mais.
No amor, a gente vira estrangeiro
No próprio território do peito,
Tudo que era certo vira dúvida
E tudo que era simples vira enredo.
E mesmo assim, amor meu
Mesmo cansado, traído, descrente,
A gente insiste em amar de novo
Como quem insiste em ser gente.
Porque amar é o último gesto
De rebeldia contra o nada,
É dizer \"eu creio\" sem dogma
Numa existência desalmada.
Amar é um ato metafísico
Num mundo que só crê no visível,
É plantar eternidade em carne
E chamar isso de possível.
No fim, quando a voz se calar,
Quando o nome virar pó na memória,
Quando o corpo devolver à terra
O empréstimo breve da história,
Vai restar apenas esse sopro antigo
Que atravessa o tempo e a razão:
um rumor de ternura infinita
Que chamamos, em silêncio: amor...
Herik Batista, 31 de maio, 2026