Francisco Claudio Claudio Gia

#O ventre que antecipa a aurora

#O ventre que antecipa a aurora

Claudio Gia, Macau, RN, 31/052026

O ventre que antecipa a aurora

Não foi o acaso que juntou dois montes
— o da Judeia e o da alma que já crê.
Maria sobe ao íngreme da promessa
e encontra, ao fim da estrada, outra mulher.

Isabel, de ventre já cansado,
guarda um fogo que salta e reconhece.
A voz da prima dobra-se em espanto:
\"Donde me vem que a Mãe do meu Senhor
me visite? Pois logo que o teu eco
soou em meus ouvidos, a criança
exultou dentro em mim como um cordeiro
que adivinha o pastor antes da luz.\"

Então Maria não recita: gera
um cântico que rasga as leis do tempo.
Não é memória, é profecia ativa:
derruba os fortes, ergue os humilhados,
enche os famintos de uma fome nova,
despede os ricos nus de seus espólios.

Ali, no entrelaçar de dois silêncios,
a visita se faz Eucaristia:
uma entrega que antecipa a Cruz,
um serviço que ignora hierarquia,
um ventre que carrega o céu a pé.

Por isso a Igreja, ao findar de maio,
põe no ápice do mês este encontro.
Não por cronologia, mas por teologia:
para que a coroa, ao baixar nas frontes,
não seja enfeite, mas memória ativa
de que o sagrado mora na subida,
na estrada empoeirada, no cuidado
que se curva e se faz irmão do mundo.

Eis a visitação, eis o Magnificat:
Deus não desce no templo, sobe em Maria.