(Lucien Vieira)
Havia um senhor em situação de rua que costumava nos visitar. Vinha cotidianamente duas vezes ao dia: uma pela manhã, quando fazia um breve desjejum, e outra próximo ao meio-dia, para o almoço. Tínhamos inclusive em reserva seus apetrechos alimentares, assim como um pequeno tamborete onde se abancava na calçada para alimentar-se sob a laje, pois não aceitava adentrar a casa.
Nossa aproximação deu-se quando o surpreendemos partilhando com cães e gatos restos alimentares espalhados sobre o solo. Estava raquítico, sujo, maltrapilho e com odor forte característico dos que vivem sem condições de asseio. Havia tristeza em seu olhar e um semblante assustado. Tinha o tom de voz baixo, quase inaudível. Apresentava-se nitidamente em estado de completo abandono.
A princípio, nós o julgamos: seria um alcoólatra? Um desequilibrado mental? Um facínora? Naquele mesmo instante, ainda hesitosos, resolvemos aconselhá-lo, alimentá-lo e recomendar-lhe o retorno diário até nós. Assim se deu. Amanhecia e, repentinamente, lá estava ele: o Sr. Luiz — esse era o seu nome — já quase habituado a rotina.
— Tudo bem, seu Luiz?
— Tudo bem, graças a Deus!
Jamais deixou de incluir o “graças a Deus” no desfecho da resposta habitual; era, talvez, um alento que o revigorava.
Nesse ínterim, nossos vizinhos — pessoas de Deus — ofereciam-lhe completo alinho, vestes e, na medida do entendimento que demonstrava, conforto espiritual. Transformara-se. Pessoas inclusive nos testemunharam mais de uma vez:
— O Pretinho, ou Zé Pretinho, como muitos o apelidavam — tá limpo, tá cheiroso... nem parece.
Certa vez, após um desses asseios promovidos pelos nossos vizinhos, quando sua barba e seus cabelos haviam sido cuidadosamente tratados, dediquei-lhe um elogio:
— Olha aí o seu Luiz, rapaz... tá bonito!
Ele olhou-me delicadamente e expressou um breve sorriso tímido, de canto de boca. Enchi-me de felicidade: ele havia sorrido.
Com o passar do tempo, porém, passamos a notá-lo ausente. Ia e vinha; a população o reconduzia das vias e vilas nos arredores da cidade. Encontrava-se desnorteado. Até que, após uma dessas reconduções, mostrou-se com a saúde completamente debilitada. A custo conseguia sustentar-se de pé. Estava em estado deplorável — inclusive imundo e defecado.
Nossos vizinhos, mais uma vez, o higienizaram e o conduziram à Unidade de Pronto Atendimento próxima, de onde posteriormente nos anunciaram a sua fuga.
Foi a última vez que o vimos em vida.
Pouco depois, fomos surpreendidos com a lamentável notícia de sua morte. Ficamos atônitos, abalados. Consola-nos, contudo, a esperança de que Deus o acolhe em Seu reino eterno.
Mas, sobre o assunto, permita-me um breve desabafo pessoal: essa foi a mais contundente amostra de desdém conferida a um ser humano que já tive o desprazer de testemunhar.
Entendo inclusive — perdoem-me os contrários – sermos corresponsáveis por tal desfecho. Afinal, como afirma o dito popular, contra fatos não há argumentos. Somos, sim, uma sociedade dúbia, perversa e egocêntrica, cujo pseudossucesso sustenta-se sobretudo em valores inversos, normalmente conduzidos por orientações irrefletidas e que redundam, nitidamente, em prazeres controversos.
“Discutimos em demasia questões fúteis, que apenas nos desvirtuam, mas insuficientemente temas que nos agucem a compreensão do que seria, de fato, o verdadeiro senso de coletividade — do nosso exato papel enquanto seres humanos e enquanto cristãos.”
Lembremo-nos, pois, que: “… tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo” (BÍBLIA. 1 João 2:16).
Usemos, portanto, as coisas, ame a Deus e as pessoas... e não o contrário!
Sentimos sua falta...