O rio passa manso à beira da cidade
Levando folhas, nomes, tardes de verão
E eu parado ouvindo a eternidade
Dentro do silêncio do teu coração
As luzes tremem sobre a correnteza
Como lembranças tentando voltar
Toda partida guarda uma beleza
Que só o tempo consegue enxergar
Te encontrei num fim de madrugada
Quando a chuva cansava de cair
Tuas mãos tinham cheiro de estrada
E um jeito bonito de partir
Desde então, cada ponte que atravesso
Tem um pouco do que fomos nós
Como se o amor deixasse impresso
Seu eco baixo entre os lençóis
O rio nunca pede permanência
Ele entende o destino das marés
Há pessoas que são só presença
Outras viram o chão dos nossos pés
Mesmo assim, quando a água se inclina
Refletindo o céu do entardecer
Penso em tudo que a vida termina
Só pra dar espaço a outro nascer
Já perdi tanta coisa na corrente
Sonhos fundos, promessas sem cais
Mas a dor também segue em frente
Nenhuma noite afoga os temporais
Te amar foi como ouvir ao longe
Uma canção perdida no vapor
Triste dessas que ninguém responde
Mas que ainda assim floresce em flor
E se um dia eu te encontrar de novo
Noutra margem qualquer desse lugar
Talvez eu já não seja o mesmo homem
Que ficou vendo teu barco passar
Talvez haja calma nos meus olhos
Talvez menos medo de perder
Porque o rio ensina aos poucos
Que viver também é desprender
Há beleza nas coisas que escapam
No que muda sem nos consultar
As estrelas também se apagam
Só pra madrugada clarear
Então deixa o tempo correr solto
Como água beijando o litoral
O amor não é prender o outro
É saber contemplar o temporal
E quando enfim chegar setembro
Com seus ventos varrendo o quintal
Quero apenas guardar teu nome
Como um verso antigo e natural
Porque algumas almas permanecem
Mesmo longe, mesmo após partir
Como rios que desaparecem
Só pra em outro canto ressurgir
...
Herik Batista, 30 de maio, 2026