Luana Santahelena

Dois Corações e uma Pia Cheia

O amor é lindo —

disso ninguém duvida,

embora às vezes ele apareça

de pantufa torta,

segurando um saco de lixo

às dez da noite

e perguntando:

“Você viu minha toalha?”

 

A convivência,

ah,

a convivência é um esporte radical

praticado sem capacete,

onde duas almas apaixonadas

tentam sobreviver

à selva misteriosa

dos armários compartilhados.

 

Há quem diga

que amar é encontrar a metade da laranja.

Discordo com delicadeza.

Amar é encontrar alguém

que deixe sementes espalhadas pela pia

e ainda assim

mereça o último pedaço do bolo.

 

No início,

éramos poesia.

 

Você sorria sem roncar,

eu acordava sem parecer

uma entidade ancestral do cansaço.

Nossos encontros tinham cheiro de café,

perfume,

e possibilidades.

 

Agora,

às vezes,

têm cheiro de alho refogado,

conta atrasada

e um leve desespero existencial

porque ninguém sabe

quem deveria lavar a frigideira.

 

E, curiosamente,

é aí que mora o mistério.

 

Porque a paixão

adora incêndios,

mas o amor verdadeiro

aprende a dobrar roupas

enquanto o arroz quase queima.

 

Existe uma filosofia silenciosa

na guerra das toalhas molhadas.

 

Uma espécie de tratado invisível

entre dois seres humanos

tentando não enlouquecer

dentro do mesmo CEP.

 

E no meio do caos,

quando o ranço ameaça crescer

feito planta esquecida na varanda,

é preciso apertar um “pause”.

 

Um pequeno intervalo sagrado.

 

Lembrar daquele primeiro encontro —

quando você me olhava

como quem encontra um milagre,

e eu escondia habilmente

meus defeitos mais folclóricos.

 

Naquela época,

eu não tinha bafo,

você não usava esse pijama de bolinha,

e a eternidade parecia caber

numa mesa de bar.

 

Hoje,

a eternidade cabe

num boleto dividido em duas vezes

e numa discussão filosófica

sobre a posição correta

do papel higiênico.

 

Talvez amar seja isso:

rir do leite derramado

antes que ele azede a semana.

 

Talvez maturidade

não seja encontrar alguém perfeito,

mas alguém cujo ronco

consiga conversar em paz

com o nosso silêncio.

 

Porque no fim —

e isso digo baixinho,

como quem revela um segredo ao universo —

eu não trocaria

esse caos doméstico,

essas pequenas batalhas ridículas,

nem mesmo sua coleção absurda de meias perdidas…

 

pelo silêncio impecável

de uma cama arrumada demais.

 

Há vazios

que fazem menos bagunça,

mas nenhuma bagunça

tem o calor

de um amor que ficou.