O amor é lindo —
disso ninguém duvida,
embora às vezes ele apareça
de pantufa torta,
segurando um saco de lixo
às dez da noite
e perguntando:
“Você viu minha toalha?”
A convivência,
ah,
a convivência é um esporte radical
praticado sem capacete,
onde duas almas apaixonadas
tentam sobreviver
à selva misteriosa
dos armários compartilhados.
Há quem diga
que amar é encontrar a metade da laranja.
Discordo com delicadeza.
Amar é encontrar alguém
que deixe sementes espalhadas pela pia
e ainda assim
mereça o último pedaço do bolo.
No início,
éramos poesia.
Você sorria sem roncar,
eu acordava sem parecer
uma entidade ancestral do cansaço.
Nossos encontros tinham cheiro de café,
perfume,
e possibilidades.
Agora,
às vezes,
têm cheiro de alho refogado,
conta atrasada
e um leve desespero existencial
porque ninguém sabe
quem deveria lavar a frigideira.
E, curiosamente,
é aí que mora o mistério.
Porque a paixão
adora incêndios,
mas o amor verdadeiro
aprende a dobrar roupas
enquanto o arroz quase queima.
Existe uma filosofia silenciosa
na guerra das toalhas molhadas.
Uma espécie de tratado invisível
entre dois seres humanos
tentando não enlouquecer
dentro do mesmo CEP.
E no meio do caos,
quando o ranço ameaça crescer
feito planta esquecida na varanda,
é preciso apertar um “pause”.
Um pequeno intervalo sagrado.
Lembrar daquele primeiro encontro —
quando você me olhava
como quem encontra um milagre,
e eu escondia habilmente
meus defeitos mais folclóricos.
Naquela época,
eu não tinha bafo,
você não usava esse pijama de bolinha,
e a eternidade parecia caber
numa mesa de bar.
Hoje,
a eternidade cabe
num boleto dividido em duas vezes
e numa discussão filosófica
sobre a posição correta
do papel higiênico.
Talvez amar seja isso:
rir do leite derramado
antes que ele azede a semana.
Talvez maturidade
não seja encontrar alguém perfeito,
mas alguém cujo ronco
consiga conversar em paz
com o nosso silêncio.
Porque no fim —
e isso digo baixinho,
como quem revela um segredo ao universo —
eu não trocaria
esse caos doméstico,
essas pequenas batalhas ridículas,
nem mesmo sua coleção absurda de meias perdidas…
pelo silêncio impecável
de uma cama arrumada demais.
Há vazios
que fazem menos bagunça,
mas nenhuma bagunça
tem o calor
de um amor que ficou.