Querido Anjo

Alguém e ninguém no mesmo espaço-tempo

Não me considero uma pessoa imensamente boa.  

Mas também não sou o mais ordinário dos homens.  

Feita de erros, construída por falhas.  

Fera, ferida e meio ferrada na vida.  

Afinal, quem não é assim?

 

Como outro ser humano qualquer,  

em minoria, em maioria,  

em passos solos, em vôos coletivos,  

tentando fazer algo legal da vida,  

sem ferrar com a vida alheia.  

Buscando equilibrar reclamações e atitudes,  

despistando os vigários e enfrentando o desânimo,  

descansando na janela do ônibus e correndo contra o tempo.

 

Entre a loucura e a responsabilidade,  

preciso me sustentar e sustentar os meus.  

De pezinhos no chão,  

construindo aviões.  

Não para guardá-los em fundos de galpões,  

apenas para voar livre do sofrimento cíclico que assola a cabeça de quem nunca teve onde descansar.  

Já quis o mundo nas mãos,  

agora só quero um espaço no mundo que me caiba e caiba os meus em um domingo à tarde na varanda.