H.B

O SilĂȘncio Antes do Mundo

 

Há existencias que carregam dentro de si uma nevasca que antecede tudo no mundo.

Não é tristeza

Porque ela ainda pertence aos homens

Isto é diferente

Algo imóvel, mineral, e muito quieto para receber um nome .

Como as catedrais grandiosas que resistem ao tempo, em uma solidão profunda, mas que mesmo assim permanecem guardando as memórias daqueles que um dia andaram por entre suas salas colossais.

A muito tempo, tanto tempo, um vazio que é simplismente natural da consciência, como atravessar semelhante a quem transpõem salões inundados, olhando as horas deformare-se sob águas antigas e escuras.

 

Os rosto vinham e iam

As vozes se acumulavam como poeira sobre móveis esquecidos

As manhãs passando uma a uma com a certeza cruel daquilo que permanece independentemente de ser amado

E ainda assim,

Em algum ponto inalcançável da matéria invisível que sustenta a existência,

algo permanecia esperando.

 

Não esperança.

 

Porque ela ainda olha para frente.

Aquilo olhava para trás,

para uma região tão remota do espírito que talvez jamais tivesse pertencido ao rio que guia tudo.

 

Por vezes, durante as noites mais silenciosas, havia a impressão de que toda vida não passava de uma tentativa desesperada de retornar a alguma coisa esquecida antes mesmo do nascimento.

 

Como se existir fosse só consequência de uma separação antiquíssima.

 

Talvez por isso certos encontros carreguem tanto peso.

 

Não chegam como novidades.

Chegam como reconhecimento.

 

E reconhecer é terrível.

 

Porque aquilo que reconhece não usa memória, nem razão, nem linguagem.

É algo mais profundo,

algo que antecede o próprio ato de sentir.

 

E de súbito, tudo sofre uma alteração quase imperceptível.

 

As ruas continuam iguais.

As estações continuam a mudar.

Os relógios continuam arrastando suas correntes sobre os dias.

 

Mas o que é real ganha um rosto novo.

 

Como uma face no universo, que até então era vazio e mecânico, passasse a esconder uma respiração mais sutil e tímida embaixo do cobertor.

E durante um breve intervalo - tão breve que às vezes nem parece ter realmente acontecido - tudo se torna leve.

 

Não pela alegria.

A alegria é ruidosa, superficial, instável.

 

O que existe ali é algo muito mais profundo e devastador, semelhante a uma paz impossível, uma suspensão momentânea da eterna condição de estrangeiro.

 

Como se duas solidões tão infinitamente remotas tivessem se encontrado nos escombros do mesmo vazio primordial.

 

Mas nada que pertence ao mundo permanece intocável.

 

O rio que tudo carrega corrói até mesmo aquilo que jamais deveria ter sido tocado por ele.

 

E então começa uma lenta deterioração incorpórea.

 

Não significa perda.

A perda ainda pressupõe distância.

 

Há coisas que continuam presentes e, ainda assim, tornam-se inalcansáveis.

 

Como estrelas mortas cuja luz continua atravessando o frio e a escuridão muito depois de seu fim.

Talvez a forma mais profunda da ruína é quando algo permanece existindo apenas como um flagelo da alma.

 

Depois disso, toda continuidade se torna estranha.

 

E os dias passam a possuir uma textura quase teatral, irreal.

As conversas parecem repetir frases ditas há tanto tempo quanto há tempo por pessoas que nunca estiveram verdadeiramente vivas.

Os afetos tornam-se pequenos demais.

As palavras tornam-se pequenas demais.

Até o sofrimento parece insuficiente diante daquilo que silenciosamente se instalou nas regiões mais internas do indizível.

 

Não é uma simples ausência.

 

Porque ela chora, implora, adoece.

 

Esta não.

 

Esta apenas permanece.

 

Imensa

Solene

Imóvel.

 

Como neve que se acumula sobre sepulturas esquecidas.

E pouco a pouco, experiências atravessam a existência de uma forma irreversível.

 

Sem deixar marcas.

Apenas estruturas.

 

Algo é deslocado para sempre dentro da arquitetura invisível do espírito.

 

Tudo já não está onde costumava estar.

 

Os olhos continuam a contemplar,

mas já não são de onde eram.

 

Há sempre um pedaço voltado para dentro,

escutando,

tentando ouvir novamente aquela voz impossível

que um dia fez o nada parecer menos eterno.

 

Talvez por isso algumas almas envelheçam cedo demais.

 

Não é sofrimento.

Porque ele purifica.

 

Mas por terem tocado, ainda que por um instante quase ínfimo, pequeno demais para ser chamado de ser, algo absoluto demais para coexistir com a banalidade da continuidade humana.

 

E então passam a existir como ruínas conscientes de si mesmas.

 

Belas de longe.

Inabitáveis por dentro.

 

No entanto, existe certa dignidade obscura nisso tudo.

 

Porque há profundidades que jamais poderiam ser alcançadas sem destruição.

 

Certas portas só se abrem para aquilo que foi partido.

 

Talvez o próprio amor - em sua forma mais pura e silenciosa - não seja exatamente um sentimento, mas uma espécie de lembrança metafísica de inteireza.

 

Uma recordação que não pode existir no mundo concreto.

 

Por isso desaparece.

Ou aparenta desaparecer.

 

Na verdade, talvez apenas afunde.

 

Desce lentamente através das camadas da consciência, atravessa

linguagem,

memória,

carne,

identidade...

até repousar naquele lugar imóvel onde todas as coisas essenciais

permanecem sepultadas antes mesmo de nascerem.

 

E ali continua.

 

Não vivo.

Não morto.

 

Apenas eterno à sua maneira reservada.

 

Como velas acesas no interior de um templo submerso,

ardendo há séculos debaixo de águas escuras,

muito abaixo do alcance das mãos humanas,

muito abaixo da própria esperança...

 

Herik Batista, 27/05/26