Querido Anjo

A onomatopeia do amor kármico

Tal como flechas, clavas e lanças.  

O rugido do aço, do ferro, do cobre.  

O bater das armaduras,  

O choque dos escudos,  

A dança letal das espadas.

 

Soa como uma guerra proeminente,  

catastrófico, cataclísmico.  

Em solos áridos, despidos de candura,  

os porquês pendentes soam tão altos,  

tão vívidos,  

tão agudamente dolorosos.  

O que ainda deve-se aos deuses,  

ao destino,  

às outras vidas,  

para que o caminho de volta destas duas almas seja tão árduo?

 

E voltando,  

por que desce sobre eles a maldição de se perderem outra vez?  

Quais débitos carregam eles com outras pessoas,  

que transgressões os prendem,  

quais lições ainda os impedem  

de pertencer por completo um ao outro,  

sem o som infernal da despedida?  

 

Essas perguntas devem assombrá-los,  

devorá-los,  

consumi-los,  

vivos, conscientes em carne crua.  

Nada além do fúnebre tilintar das lágrimas,  

misturado ao sabor agridoce do karma cíclico.

 

Eis o som das flechas, clavas e lanças,  

o fervor do aço, do ferro, do cobre,  

o bater das armaduras,  

o choque dos escudos,  

a dança mortal das espadas.  

 

Ele escuta, 

ele lembra,  

ele a sente.

Ela ouve,

ela recorda,

ela o sente.

 

Como o suor que escorre das têmporas,  

como o frio que percorre a espinha,  

como a fuligem que cobre o rosto,  

como sangue pulsando nas veias,  

como saliva na boca,  

como um pensamento que arde na consciência.  

Tão intrínseco, tão intenso, tão profundo,  

tal como o espírito pertence à alma.  

 

Ao vê-la,  

ao ouvi-la,  

ao tocá-la,  

ao cheirá-la,  

ao pensar nela,  

cada pergunta se desfaz,  

o cansaço se retrai,  

e o fardo se vai.  

 

Ele simplesmente não contém o choro.  

Ela simplesmente sorri sem esforço. 

 

Dois mundos sempre distintos,  

ocupando lados opostos,  

quase sempre inimigos declarados,  

algemados aos papéis da rivalidade,  

acorrentados ao desenvolvimento imprevisível

de um amor genuíno.  

 

O tempo insiste em despertar laços de afeto  

no meio a nós cegos dessas vidas impossíveis.  

Linhas calmas não traçam esta história.  

Tortos, torturantes e torcidos são estes capítulos.

 

A calamidade que o afasta dela  

é a mesma que a traz de volta a ele.  

Ela simplesmente não consegue quebrar os ouroboros.  

Na verdade, ela não consegue evitar se perder,  

tão facilmente, tão definitivamente,  

nos caminhos que a levam a amá-lo perdidamente.

 

Deve soar mais ou menos assim,  

a onomatopeia do amor kármico.