Quando o sol ainda brilhava
sobre os pátios simples da vida,
eu não sabia que o tempo
era um ladrão silencioso
aprendendo o caminho da partida.
Havia risos espalhados
como folhas leves no quintal,
promessas que pareciam eternas
e um futuro aberto
como estrada depois do temporal.
Mas os dias foram ficando densos,
carregados de contas e despedidas,
e aprendi que crescer
é colecionar ausências
entre as coisas mais queridas.
Alguns sonhos ficaram pelo chão,
como cadernos esquecidos na estação,
outros resistem, mesmo frágeis,
respirando no fundo da memória
como uma antiga canção.
A vida não foi feita de milagres,
foi feita de tentativas e quedas,
de portas que nunca abriram
e de noites longas
em que a esperança anda às cegas.
Ainda assim, às vezes,
quando a tarde ficar quieta
e o vento passar devagar,
eu sinto um eco daquele tempo
em que tudo parecia começar.
E penso, sem raiva e sem pressa,
que talvez viver seja isso:
seguir adiante mesmo ferido,
guardando no peito um pouco de luz
do sol que já foi perdido.