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O Rei Salomão

Rei Salomão, soberano de reinos voláteis,
ergue muralhas ao amanhecer
e ao entardecer já esqueceu onde as colocou.

Proclama pureza como decreto,
recita virtudes com voz de altar,
um sermão impecável…
se ninguém olhar nos bastidores.

Dizem que é escolhido.
Talvez seja 
principalmente quando convém ao próprio roteiro.

Ora acessível como praça pública,
ora inalcançável como templo fechado,
um curioso milagre de presença seletiva
e ausência conveniente.

Entre promessas e silêncios,
há gestos que desafiam o discurso,
mas curiosamente nunca desafiam
o próprio desejo.

E então vem a revelação:
um sopro “mais alto”, incontestável,
como se o céu discretamente endossasse
cada contradição bem posicionada.

Curioso…
porque no mesmo enredo em que se absolve,
alguém sempre precisa carregar o rótulo.
E adivinha quem vira a história errada?

Mas não, ele não se contradiz 
apenas reescreve a moral
até caber confortável na própria consciência.

Rei Salomão, fiel às próprias versões,
guardião de princípios flexíveis,
onde o verbo é santo
e a prática… altamente adaptável.

E nós, por um instante,
quase acreditamos na coroa 
sem notar que ela muda de peso
dependendo de quem observa.

No fim, resta a lucidez:
não era fé,
não era destino,
não era voz divina.

Era só um excelente ator
com um roteiro repetido
e uma plateia que, felizmente,
aprendeu a sair antes do último ato.