Nicole JS. C

Homem de chapéu

Ele é alto, alto demais.

Veste terno, usa chapéu e gravata vermelha.

As pernas longas não parecem deste mundo.

Ele me observa de perto.

 

Eu o vejo por segundos enquanto trabalho,

Enquanto tento viver no meu quarto.

Ele sorri quando eu erro,

Como se meu tropeço fosse o seu prazer.

 

Não sei o que ele quer,

E não tenho coragem de perguntar.

Coloquei meus limites, e ele sumiu no breu,

Mas meus olhos ainda procuram o escuro,

Esperando que ele apareça ali outra vez.

 

Em outro momento, ele veio montado.

O cavalo branco de olhos vermelhos,

Com fumaça saindo pelas ventas, puro ódio.

O homem se coloca atrás de mim, gigante,

E o medo me trava: eu não posso me virar.

 

Pa. Pa. Pa.

 

O casco esquerdo do bicho bate no chão.

Sinto o choque, os nervos do meu pé se contorcem.

Passo o dia mancando, sentindo a marca daquela fúria.

 

Mesmo que eles tenham ido embora.

Vi o cavalo de novo, dias depois,

Acorrentado ao nada, sem dono e sem controle.

Ele mata, ele destrói tudo o que toca,

Mas ele não consegue me alcançar.

 

O homem sumiu.

Mas o medo do seu retorno bate à porta,

Entra sem pedir licença

E revira meus órgãos aqui dentro.