Voltei ao cais com as mãos trêmulas de zelo,
Desta vez, jurei, a arquitetura seria exata.
Tratei cada gesto como uma petição de urgência,
Limpando o pó de cada palavra para que não houvesse mácula.
Mas o amor não sobrevive em laboratórios de vidro,
Onde o medo de errar é maior que o desejo de estar perto.
Tornei-me o vigia do meu próprio pânico,
Um sentinela paranoico num deserto que eu mesmo abri.
Bitolado na perfeição, esqueci-me de ser humano.
Cada silêncio dela era um código de abandono que eu decifrava;
Cada olhar distraído, uma sentença de morte anunciada.
Vivi o futuro antes que ele acontecesse,
E, de tanto evitar o fim, eu o convidei para sentar-se à mesa.
Queria fugir daquela dor, daquela carcaça de meses vazios
Que me assombrou pelas ruas do bairro.
Mas o medo da dor é a própria dor em estado de vigília.
Tentei segurar a água com os punhos cerrados,
Acreditando que a força do meu controle manteria o fluxo.
Mas quanto mais eu apertava, mais a vida me escapava entre os dedos,
Deixando apenas a palma seca e a alma em espasmo.
Fui o engenheiro da minha própria queda:
Ao polir as arestas para que nada falhasse,
Retirei o atrito necessário para que pudéssemos caminhar.
O meu \"perfeito\" era apenas um vácuo onde ela não conseguia respirar.
Hoje compreendo a metafísica do meu desterro:
O que eu mais temia não era a partida dela,
Mas o encontro com aquele Eu que sobrou da última vez.
Para não ser novamente o fantasma que habita os ambientes,
Tornei-me o carrasco que executou o próprio sonho.
Sou o autor do crime que eu mais queria evitar,
Preso num tempo onde o erro e a perfeição
São as duas faces da mesma moeda que eu joguei ao mar.