julianahoffmannliska

Tinta eterna

Há cem anos
eu escrevo teu nome
em papéis que o tempo amarelou.
A tinta escorre como chuva antiga
sobre cartas nunca enviadas,
sobre selos que jamais conheceram destino.

Te amei em séculos diferentes.
Na fumaça dos trens de 1920,
na poeira das estradas esquecidas,
na janela fria de um inverno
onde teus dedos tocaram os meus
pela última vez.

Depois veio a morte.
Silenciosa.
Vestida de branco,
como alguém que pede licença
antes de destruir uma casa inteira.

Tu partiste primeiro.
Eu fiquei vagando.

Desde então,
sou esta alma presa entre corredores invisíveis,
uma sombra que observa relógios parados
e retratos cobertos de mofo.
As cidades mudaram de nome,
os amantes mudaram de rosto,
mas eu continuo aqui,
carregando cartas dentro do peito
como quem carrega cadáveres pequenos.

E tu…
renasceste.

Te encontrei cem anos depois
nos olhos de alguém desconhecido
atravessando uma rua qualquer.
Teu riso ainda possuía o mesmo inverno.
Tua voz ainda fazia as lâmpadas tremerem.

Mas tu não lembravas de mim.

Eu lembrava por nós dois.

Lembrava do piano desafinado,
das rosas secas dentro da bíblia,
do cheiro de tinta nos teus dedos,
das promessas enterradas atrás da velha casa.

Enquanto tu aprendias novamente
a existir,
eu aprendia a sobreviver
ao peso da eternidade.

Há noites em que escrevo teu nome
em folhas vazias
até a tinta sujar minhas mãos
como sangue de memórias abertas.
Depois rasgo tudo.
O vento leva os pedaços
como pássaros mortos.

Porque algumas cartas
nascem destinadas ao silêncio.

E alguns amores
morrem tantas vezes
que acabam virando fantasmas
antes mesmo do fim.

Talvez seja isso a eternidade:
uma alma reencarnando para esquecer,
e outra condenada
a lembrar.