Viviane.93

Depois

Havia barulho em mim

antes de você ir embora.

 

Minha garganta trabalhava o dia inteiro,

derrubando canções desafinadas

sobre a umidade de banhos demorados.

 

Os joelhos viviam cansados

nesse eterno dobra e estica

de quem ainda acreditava

que flores dependiam de cuidado

e que dançar sozinho no quarto

era uma forma de felicidade.

 

Até meus olhos trabalhavam:

erguiam-se para o céu

como quem precisava confirmar

que o azul ainda existia.

 

Tudo em mim se movia.

Tudo pulsava.Havia vida.

Hoje, porém,só restou o silêncio 

 ocupando cada cômodo do meu corpo.

 

O sangue parece andar devagar,

como um rio perdendo correnteza,

e o coração ,exausto da ausência,

bate apenas por obrigação.

 

E hoje sou quietude.

Um jardim sem vento,

uma música esquecida no meio,

um corpo onde até o silêncio

parece cansado de morar.