O sábado amanheceu nublado e chuvoso,
mas havia paz demais no peito
para chamar isso de tristeza.
Os pássaros cantavam entre os fios,
o café esfriava devagar na mesa
e a Bíblia aberta parecia conversar baixinho
com o silêncio da casa.
Lá fora, São Paulo seguia apressada.
Aqui dentro,
filmes antigos, episódios esquecidos
e a rara sensação
de não precisar fugir de nada.
A solitude tinha cheiro de manhã fria
e coração desacelerando.
Percebi, entre um gole de café e outro,
que já não lembrava direito da sua voz,
e isso não doeu.
Talvez meu coração esteja finalmente aprendendo
a esquecer sem fazer barulho.
Mais tarde,
a Liberdade acenderia suas luzes
e eu encontraria um amigo querido
entre abraços, ruas cheias, letreiros acesos
e conversas leves que aquecem mais que casaco em dia frio.
E pela primeira vez em muito tempo,
São Paulo parecia menos pesada.