Às vezes penso
que fui criada bela demais
para um planeta pequeno demais.
Passei tanto tempo admirando o brilho das minhas próprias pétalas
que não percebi o instante exato
em que comecei a ter medo do amor.
Tu acreditava que eu era orgulho,
capricho, vaidade delicada.
E talvez eu realmente tenha sido,
flores também inventam defesas
quando não sabem como pedir para alguém ficar.
Então escondi minha ternura
entre espinhos e frases difíceis.
Fingi independência diante do vento.
Fingi não precisar de companhia
enquanto observava, em silêncio,
cada pôr do sol atravessar o planeta.
Mas você nunca percebeu
que minhas pétalas estremeciam
todas as vezes que seus passos se afastavam.
Depois que partiu,
o universo ficou grande demais.
As estrelas perderam um pouco do encanto,
como objetos belos vistos através de vidro frio.
E comecei a compreender algo terrível sobre certas flores:
algumas sentem profundamente demais
para conseguirem viver apenas na superfície das coisas.
Desde então,
carrego uma estranha sensação
de não pertencer completamente ao jardim.
Observo os mundos girando,
as criaturas correndo atrás de brilhos vazios.
Sinto o fio invisível entre as estrelas,
o vento, a água, as despedidas,
e compreendo que existem coisas tão frágeis
que o mundo moderno pisaria nelas
sem nem notar.
Tu via via beleza em tudo.
Eu não.
Eu via rachaduras.
Via o medo escondido dentro das pessoas.
Via o quanto elas ferem aquilo que amam
por não suportarem a própria vulnerabilidade.
E ainda assim…
a cada noite,
quando o silêncio cobre meu pequeno planeta
e as estrelas começam a respirar mais perto,
algo em mim continua olhando o universo
como quem espera.
Não por retorno.
Nem por resposta.
Mas porque certas rosas,
mesmo depois de compreenderem a solidão do cosmos,
ainda escolhem florescer.