Antes que o mundo se afogue em cinzas pelo chão,
Arde um fogo morrendo na escuridão.
Não grita, não ilumina, não conhece calor,
Só brasa apodrecida respirando sem cor.
As sombras se alimentam do resto da combustão,
Feito cães de cemitério rondando solidão.
O frio lambe as paredes cobertas de mofo e pó,
O vazio faz morada onde antes havia nó.
Esse fogo já foi febre queimando o firmamento,
Rasgando a carne da noite igual lâmina no vento.
Dorme entre cacos de alguma eternidade,
Com a fumaça sufocando a própria claridade.
Antes que o mundo acabe no silêncio do carvão,
O fogo ainda procura aquilo que virou ausência e chão.
Procura vozes antigas perdidas no vendaval,
Ecos apodrecidos dentro de uma catedral.
No cemitério do tempo existem chamas deitadas,
Com os ossos consumidos e as bocas costuradas.
Cada lápide carrega um nome já consumido,
Como retratos queimando dentro do esquecido.
Antes que o mundo acabe restará somente o breu,
Um amontoado de fumaça onde nem Deus desceu.
Como se toda chama carregasse condenação,
Arder por algo que já virou escuridão.