Memória de infância
Ah, que falta me faz o sol primeiro
Que acendia o dia lá no meu quintal,
Da meninice solta, sem paradeiro,
Que o tempo levou num passo desigual.
Tenho sede da manhã que eu tinha inteira,
Do cheiro de manga, do pé no chão,
Da vida correndo leve na ladeira,
Sem saber que o relógio aperta a mão.
Lembro do rio como espelho e brinquedo,
Do medo pequeno de assombração,
Do riso que vinha sem ter segredo,
E do abraço de avó virando oração.
Hoje carrego relógio, carrego pressa,
Carrego o mundo nas costas de homem,
Mas a alma ainda pede aquela promessa
De tarde comprida que nunca consome.
Aurora da vida, infância querida,
Não volta no calendário, eu sei.
Mas volta no verso, na alma ferida,
Toda vez que, baixinho, eu lembrarei.
E se o ano não traz de volta o menino,
Que traga ao menos o jeito de olhar:
Ver graça na nuvem, no pão, no destino,
E achar que amanhã vai sempre durar.