Maximiliano Skol

RESTO

           RESTO                                   

Pois é, meu periquito...
Dorme,  dorme tranquilo.
Tua noite foi de insônia.
O frio...
Podaram tuas asas  contra o voo
E  são inadequadas contra o frio.
Dorme, querido!
Agora, espalha tuas penas,
Exerce estiramentos das perninhas,
Ajeita as penas com ternura do teu bicar...
Este teu lindo colar fica intocável...
E decido a meditar o teu destino.
Nasceste programado desde o chocar do teu embrião
E a viver como meu amigo.
Assim foram os nossos destinos premeditados.
Continuo a cogitar sobre o teu traçado fim.
Sofrerás com tua velhice,         
Assim como idoso estou?
Sofrerás no teu passamento,
Que fim te espera?
Que destino a nós dois está inscrito?
Serei o primeiro,
Serás sem minha companhia
E quem te cuidará?
Quem decifrará a tua fala?
\"E aí,Lúpi?
Oi, fofinho da mamãe!
Que  lindo, né?
Oi, fofinho, tudo bem?
Pensa, pensa como é lindo?
Tô, tô, tô, tô...
Que foi?
Oi, Lúpi, tudo bem?
Gostoso, né?
Quer tomar banho?
Dá tchau, dá tchau:  e seguras com teus quatro garrinhas o meu dedo— tchau!!
Um, dois, três—gol!
Dá o pé, dá  o pé, Lúpi!
Dá o péé...\"
Quem te entenderá?
Ainda bem que essa minha preocupação se limita a ti.
Não tenho descendentes,
Tu és o único liame no meu destino...
Ah, vou deixar de confabular
Sobre ti e sobre mim.
Estamos juntos na canoa sobre o oceano da vida,
Nenhum porto temos em conta,
Nenhum socorro  nos espera.
Estamos na canoa do destino,
Sem escapatória–\" kismet.\"
Assim será.

Tangará da Serra, 21/05/2026