Eu precisava de um emprego
Não só de algum dinheiro
Queria prova no peito
De existir por inteiro
Precisava de um crachá
De rotina e lotação
Do ônibus cheio às seis
E do peso da exaustão
Chegar em casa acabada
Ouvir sem nem contestar:
“Pelo menos tá cansada, mas conseguiu trabalhar.”
Como se o trabalho santo
Pudesse tudo limpar
Até a culpa escondida
De apenas não produzir mais
Porque quem fica parado
Vira olhar atravessado
Como se desempregado
Fosse um erro declarado
Como se toda tristeza
Fosse falta de vontade
E eu fui me convencendo
Dessa falsa realidade
Passei a medir meu preço
Pelas horas de labor
Pelas notas no bolso
E migalhas de valor
“Tô ocupada”, eu dizia
Quase como proteção
Porque quem vive correndo
Ganha mais consideração
Gente ocupada parece
Ter destino e direção
Enquanto quem silencia
Vira sombra no salão
Recebe menos carinho
Menos tempo, menos paz
Porque até o amor do mundo
Pra quem rende chega mais
Sem emprego eu me sentia
Um fantasma pela casa
Currículo acumulando
Poeira, medo e desgraça
“Você precisa de rumo
Precisa fazer a vida.”
Como se eu já não lutasse
Pra não sumir na ferida
Então eu fui trabalhando
Até doer sem notar
Até meu corpo cansado
Aprender a se calar
Confundiram meu cansaço
Com vitória e evolução
Mas era só sobrevivência
Vestida de ambição
E no fundo eu queria
Só alguém pra perceber
Que eu ainda era humana
Mesmo sem nada render
Mesmo pobre, mesmo fraca
Mesmo cheia de falhar
Mas o mundo nos ensina
Que só vale quem lucrar
Quem produz merece nome
Merece voz, atenção
E quem não consegue o ritmo
Vira número no chão
Piada curta, silêncio
Algo fácil de esquecer
E eu acho tão cruel
Precisar me vender
Em parcelas de horário
Troca injusta e desigual
Pra sentir que minha vida
Tem algum valor real
— Naiumi
São Paulo, 21 de março de 2026.
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Versão rimada inspirada no original.