Nas sombras onde a luz ousa morrer, Encontrei o compasso do meu próprio fim. Sei que o mundo racha e desaba lá fora, Mas meu caos repousa em teu jardim de marfim.
Teu olhar é o eclipse que cega a razão, Uma noite eterna onde decidi habitar. És o sussurro frio em minha solidão, O veneno doce que escolhi brindar.
\"Amo-te como se ama o silêncio das lápides, Com a devoção de quem venera o abismo. Se o amor é uma prece sussurrada às traças, Minha alma é o teu mais sombrio batismo.\"
Teus passos ecoam em meu peito vazio, Como passos lentos em um velho mausoléu. Teu beijo tem o gosto do inverno mais frio, E o teu abraço é o meu inferno e meu céu.
Não te ofereço flores sob o sol da primavera, Mas sim a beleza das pétalas que vão murchar. Aceita este peito que por ti desespera, E deixa nossa névoa, no escuro, se entrelaçar.
Se a morte vier nos buscar na tormenta, Que nos encontre unidos no mesmo caixão. Pois nem a terra, o tempo ou a cruz que fragmenta, Apagam o que queima nesta eterna escuridão.