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Coração nublado

Queria te contar do meu dia,

mas algumas ausências transformam até as palavras em silêncio.

 

São Paulo amanheceu cinza outra vez.

Os prédios desapareceram atrás da neblina,

o vento frio atravessava as ruas,

e por um instante eu pensei

que a cidade inteira parecia sentir sua falta comigo.

 

Engraçado como certas pessoas vão embora

e levam a luz junto com elas.

 

Porque nada aconteceu de extraordinário hoje

e foi exatamente isso que doeu.

 

O cliente difícil no trabalho que me estressou,

a piada que fizeram e que teria te feito rir também,

o café corrido entre uma tarefa e outra,

e aquela vontade automática de pegar o celular

pra te contar tudo no meio do dia.

 

Comprei coisas que imediatamente me lembraram você.

Passei minutos escolhendo, imaginando qual seria sua reação,

pensando em te mandar foto,

em ouvir você dizer que ficou bonito em mim

ou fazer algum comentário bobo só pra me provocar.

 

Mas o celular ficou quieto.

 

E talvez seja estranho sentir tanta falta de uma voz.

Mas eu sinto.

Sinto falta dos seus áudios chegando de repente,

da sua risada atravessando o fone,

do jeito que você falava meu nome

como se por alguns minutos a distância deixasse de existir.

 

Eu amava aquilo porque me fazia sentir perto de você.

Mesmo longe.

Mesmo sem toque.

Mesmo sem nós.

 

Agora existe esse vazio estranho

onde antes havia som.

 

A saudade não me destrói de uma vez.

Ela faz pior.

Ela permanece.

 

Mora nas pausas do meu dia,

nos trajetos de volta pra casa,

na tela acesa esperando uma mensagem que não chega,

e nessa necessidade absurda

de continuar dividindo a vida com alguém

que já não está mais nela.

 

E às vezes acho cruel

que o amor sobreviva mesmo sem lugar para ficar.

 

Porque eu ainda guardo coisas pra te contar.

Ainda imagino sua reação pras coisas bobas,

ainda penso em você

quando o céu escurece cedo demais lá no interior.

 

Mas tudo termina em silêncio.

Sempre silêncio.

 

E talvez seja isso que mais machuca:

continuar vivendo dias inteiros

com o coração cheio de alguém

que não volta no fim da noite

pra ouvir como eles foram.