RGGouveia

O grito

De repente, as pessoas perdem as faces. Expressões vazias passam por mim. As vozes são ruídos uníssonos e indecifráveis. Todos caminham no mesmo passo, e o impacto é simétrico em tique-taques.

O sol é a lua.

O claro é o escuro.

Lavo o rosto, olho-me no espelho e vejo o grito de Edvard Munch.

Grito em uníssono com os indecifráveis. Será que faço parte dessa realidade fantasmagórica?

É isso que nos tornamos?

Reflito e percebo a lógica do raciocínio intacta. Tenho, então, um esconderijo, uma rota de fuga.

Volto para o quarto. Fecho a janela interna. Apago o candelabro. Deito no chão, encolhido. Fecho o local onde estariam meus olhos.

Adormeço.

Acordo assustado. Quase caio da cama. Abro a janela. Tudo no seu lugar.

Vou ao espelho. Minha imagem sorri. Retribuo.

Agradeço por todas as dificuldades que enfrentei e enfrentarei.

Estou renovado.

Vivo!