Calendário de Ipês
No cerrado o tempo não tem hora,
Tem cor, tem flor, tem ipê que aflora.
Quando o seco racha o chão da gente,
A mata acende um sol diferente.
Julho chega e o roxo faz alvorada,
Ipê-roxo rasga a seca calada.
Trombeta lilás na vereda aponta:
“Agüenta, sertão, que a chuva tá pronta”.
Agosto é branco, quase de algodão,
Ipê-branco veste o campo em clarão.
Parece paz pousada em galho torto,
Faz até o cupim ficar absorto.
Setembro explode em chama amarela,
Ipê-amarelo, a glória mais bela.
A Serra Dourada fica pequena
Perto do ouro que a copa desenha.
Outubro pinta o rosa delicado,
Ipê-rosa dança no ar dourado.
É flor que atrasa pra ver se a chuva
Já molha o chão e a poeira se curva.
E quando a chuva enfim se derrama,
O verde volta, mas o ipê declama:
“Eu sou o aviso, eu sou o ponteiro,
O relógio vivo do ano inteiro”.
No cerrado, meu filho, não se conta
Mês por número que o homem monta.
Se conta por ipê que abre a porteira:
Roxo, branco, amarelo e rosa na fileira.