Sinvaldo de Souza Gino

Calendário de Ipês

Calendário de Ipês

No cerrado o tempo não tem hora,  
Tem cor, tem flor, tem ipê que aflora.  
Quando o seco racha o chão da gente,  
A mata acende um sol diferente.  

Julho chega e o roxo faz alvorada,  
Ipê-roxo rasga a seca calada.  
Trombeta lilás na vereda aponta:  
“Agüenta, sertão, que a chuva tá pronta”.  

Agosto é branco, quase de algodão,  
Ipê-branco veste o campo em clarão.  
Parece paz pousada em galho torto,  
Faz até o cupim ficar absorto.  

Setembro explode em chama amarela,  
Ipê-amarelo, a glória mais bela.  
A Serra Dourada fica pequena  
Perto do ouro que a copa desenha.  

Outubro pinta o rosa delicado,  
Ipê-rosa dança no ar dourado.  
É flor que atrasa pra ver se a chuva  
Já molha o chão e a poeira se curva.  

E quando a chuva enfim se derrama,  
O verde volta, mas o ipê declama:  
“Eu sou o aviso, eu sou o ponteiro,  
O relógio vivo do ano inteiro”.  

No cerrado, meu filho, não se conta  
Mês por número que o homem monta.  
Se conta por ipê que abre a porteira:  
Roxo, branco, amarelo e rosa na fileira.