Poesia Abandonada

Sobre leões e satélites

Mesmo na prece do sono profundo, Ele é o centro e o peso do mundo. Deitado na terra que chama de lar, A savana inteira o vê respirar. A juba armada, coroa de poeira, Imponente leão em sua trincheira.

Ao seu lado repousa o espólio da caça, O resto do sangue que o tempo não passa. Um naco de carne, promessa sagrada, Que a presa guardou na última jornada, Mas que a força do rei, no cansaço da lida, Deixou para trás como sobra da vida.

Na sombra dos arbustos, a tribo espreita, Com olhos de fome e a lança direita. Querem o naco, o osso, o banquete, Desafiar o monarca num vil estilete. Mas mesmo dormindo, o bicho assombra; Ninguém ousa dar um passo na sombra.

E longe dali, no azul do infinito, Alheio ao silêncio e ao drama maldito, Um brilho de ferro no céu a girar: O frio satélite a rodopiar. Olhando de cima o rei e a carcaça, A tribo que espera, o tempo que passa... A velha savana em sua eterna fogueira, Cercada de aço pela órbita inteira.