Eu sempre fui mulher de esperar.
Daquelas que contam os anos
como quem rega uma planta seca,
na esperança de um dia florescer.
Doze anos.
Doze aniversários,
doze viradas de ano,
doze vezes imaginando um vestido branco
que nunca saiu do pensamento.
Ele me prometia futuro
com a mesma facilidade
que adiava o presente.
E eu fiquei…
porque amar, pra mim,
sempre foi verbo sem medida.
E no meio de tantos anos,
eu percebi uma dor silenciosa:
nunca recebi flores.
Nunca senti uma aliança tocar meu dedo
como quem diz
“eu escolho você.”
Eu assistia outras mulheres
ganhando pequenos gestos de amor,
enquanto eu colecionava esperas
e desculpas bonitas.
Depois veio um amor perdido de si mesmo.
As noites longas demais,
os excessos,
as palavras atravessadas pelo álcool,
os olhos vazios tentando esconder dores
que acabavam respingando em mim.
Deixando não só meu corpo marcado, mas também minha alma...
E eu tentando salvar o que existia,
mesmo me perdendo aos poucos de mim.
Eu sempre me dei inteira.
Inteira no cuidado,
inteira na lealdade,
inteira no sonho de construir um lar.
Mas a vida parecia ter feito de mim
uma estação de passagem.
Ninguém ficava.
Ninguém construía.
Ninguém segurava minha mão
com vontade de permanecer.
Então apareceu alguém
com jeito de oração atendida.
Parecia santo, gentil, amoroso.
Falava comigo com uma doçura rara,
me cobria de elogios
como quem enxergava beleza até nas minhas dores.
E eu acreditei.
Acreditei quando ele falava de futuro,
quando fazia parecer
que Deus finalmente estava me entregando paz
depois de tantas guerras.
E eu imaginei futuros.
Filhos correndo pela sala,
uma janela grande deixando o sol entrar,
um jardim molhado de manhã,
um café dividido em silêncio e paz.
Eu imaginava um amor tranquilo,
porque depois de tanta dor
o coração aprende a sonhar baixo.
Imaginei uma aliança,
flores deixadas sobre a mesa,
abraços demorados na cozinha,
um lar simples
mas cheio de amor verdadeiro.
Mas no fim,
ele também virou promessa.
Daquelas bonitas de ouvir
e dolorosas de lembrar.
Nem ele ficou.
Nem ele chegou de verdade.
E às vezes eu olho pro céu cansada,
pensando se existe mesmo
algum pedaço bonito reservado pra mim.
Porque eu sou a mulher
que oferece colo
mesmo quando está desabando.
A mulher que ama forte
num mundo de gente rasa.
A mulher que sempre entrega flores
e volta pra casa com as mãos vazias.
Mas talvez…
talvez Deus esteja escrevendo devagar.
Talvez a casa ainda exista.
A janela grande.
O jardim.
O homem que não vá embora.
O casal de filhos correndo pela sala.
Talvez exista alguém
que olhe pra mim
e não queira só ser amado,
mas queira amar também.
E nesse dia,
depois de tantos amores quebrados,
eu finalmente vou entender
que nunca fui difícil de amar.
Só entreguei meu coração
para quem não sabia cuidar dele.