A temperatura cai devagar,
como se a noite estivesse tentando
acalmar a febre do mundo.
Na televisão, auroras cor-de-rosa
incendeiam o céu de países distantes,
belas como presságios,
delicadas como algo que existe
um instante antes do colapso.
E eu gosto de observar tudo em silêncio,
sentindo essa estranha fadiga
de viver num tempo
onde as pessoas confundem qualquer brilho com luz.
Você já sentiu isso?
O planeta respira com dificuldade.
Os mares carregam resíduos invisíveis,
as cidades mastigam o próprio ar,
e há um ruído constante de mentira
escorrendo pelas telas
como petróleo sobre água viva.
Às vezes penso que o ser humano
é o acontecimento mais extraordinário do universo,
essa criatura capaz de compor sinfonias,
descobrir galáxias,
beijar com ternura,
inventar poesia.
E ao mesmo tempo,
uma praga sofisticada,
com mãos suficientemente inteligentes
para destruir toda a estrutura da vida
e chamar isso de desenvolvimento.
Durante muito tempo achei
que havia algo errado comigo,
como se eu tivesse perdido
algum código secreto de pertencimento.
Mas talvez não.
Talvez eu apenas enxergue
camadas demais.
Talvez minha mente pense
mais que a maioria das pessoas.
Talvez o peso venha justamente daí:
de perceber que as coisas mais essenciais,
o ar, a água, o afeto, a verdade,
o silêncio de uma floresta intacta,
se tornaram invisíveis
para quem aprendeu a venerar apenas
o que reflete superfície.
E mesmo assim,
em algum lugar entre o frio da noite
e o rosa impossível das auroras,
ainda existe algo respirando baixo,
como um
a centelha teimosa
recusando-se a morrer dentro do mundo.