Olhando para a estrada
Olhando para a estrada, agora vejo, mas antes não…
Olhando para a estrada, sentado à porta na frente minha casa, posso vê-la. Vejo-a como ela se me apresenta: um risco preto passando pela pele do solo vermelho. Mas não é só isso: olhando para a estrada também vejo o por do sol, banhando-se no lago que enfeita minha paisagem vespertina. Seu beijo de fim de tarde, despedindo-se do dia, tinge de mil cores o céu que se veste de nuvens. E, antes das água fecharem os olhos para o repouso da noite, enfeitam-se de dourado. São águas que brilham antes de lusco-fusco da noite, à beira da estrada.
Olhando para a estrada, vejo isso: vejo gente que vai, gente que vem, cada um em sua caminhada, em seu percurso, querendo chegar. Eu, porém, que os vejo, da minha varanda, olhando para a estrada, só os vejo indo. Todos vão, de um para outro lugar, de norte a sul, de sul a norte… e eu os vejo, olhando para a estrada que, apressadamente, passa em frente, logo ali para onde estou olhando. Todos vão. Sonham chegar sãos querendo abraçar os seus, em seus destinos, onde os seus os esperam.
Olhando para a estrada, vejo a mansidão da tarde. O cantar das aves, patinhos selvagens e outros mergulhões gargalhando do sol que, enamorado da noite, despede-se enquanto a lua, do outro lado, ainda não se apresentou em seu esplendor de dama da noite vestida em sua palidez argentina. E assim, o sol despede-se da paisagem bucólica escurecendo aquele pequeno mundo de luz. E é assim que vejo meu fim de dia, fim de tarde, começo da noite… Olhando para a estrada…passando sobre onde passam pessoas.
Olhando para a estrada posso até pensar em poesia. Basta ver com o coração tudo que os olhos podem contemplar. Mas não é só isso. Tem que ir além das cores raiadas de sol, do som das aves e do seu trinido melodioso; além do espelho das águas douradas de entardecer… em tudo posso pensar em poesia. Porém, o transitar das pessoas em disparada louca pela estrada, indo sempre, nem sempre pensando em para onde ir, correndo em direção ao seu destino… isso não soa poético. Penso, pode ser meio patético, e acredito ser bem assim a viagem das pessoas que vejo passando, enquanto eu continuo olhando para a estrada. Passam pensando na chegada, sem se dar conta da caminhada. Importa chegar, mas, antes, tem que caminhar… tem que haver a caminhada para que aconteça a chegada.
Olhando para a estrada, já não vejo apenas aquele risco seco, preto, cicatriz do progresso feito um corte insano, purgando tempos sonhados no regresso de todos os que vão.
Olhado para a estrada, vejo o alvorecer tornando-se noite, no fim do dia. E a estrada já não é caminho, é o risco de viver. Com cores, com dores, com flores, com sabores de despedida, pois a estada é a própria vida. Por ela não só circulam pessoas, mas são vidas que se esvaem. “O hoje é apenas um furo no futuro por onde o passado começa a jorrar”, cantou Raul, falando das gotas de vida pingando diariamente até esvaziar a caixa de surpresas que é o viver. É a “longa estrada da vida” (cantada como sucesso) na qual cada um vai correndo, andando..., arrastando-se até chegar ao destino, o momento de ser plantado: semente de um corpo que não vai, é levado numa última caminhada numa estrada sem retorno.
Olhando para a estrada, vejo tudo acontecendo. Olho como quem contempla do lado de fora, plateia no teatro da vida. Olho, como quem não está no caminho, como se a plateia não fosse um dos elementos que compõem o espetáculo. Olho, porque também estou nessa estrada que é só minha enquanto outros espreitam meu caminhar. Olho, no teatro da minha vida, os outros são a plateia que asiste e se ri das armadilhas prontas para me prender, braços abertos para me acolher, riso no rosto para me aplaudir, batendo palmas ao me ver cair. Olho minha estrada que aos olhos dos outros perfaz o drama que os diverte enquanto me contemplam, como eu, ao assistir o espetáculo em que outros são atores solitários, pois a estrada é pessoal, intransferível. Cada um é ator de seu próprio drama ou de sua comédia… e assim segue-se o caminhar, nessa estrada em que se passam nossas vidas.
Olhando a estrada, foi assim que vi: