Guardei o ódio no bolso como uma moeda rara,
esperando o dia de ver o teu preço cobrado.
Achei que o tempo fosse um juiz de linha clara,
que traria o teu castigo em um dia marcado... Vivi de espiar o teu horizonte, no engano
de que a tua queda pagaria o meu chão partido.
A mística do troco é um consolo humano que o universo vinga o ofendido.
Mas os anos passaram sem estrondo ou vigília. Vi teu sorriso novo em fotos de calçada.
Você ergueu seus muros, refez sua família,
e a tua colheita nunca foi paga, e eu que esperei a peste ou o deserto. Também deitei raízes em outra estação, o meu peito, aos poucos se abriu e eu vivi.
Foi aí que entendi o meu erro mais fundo:
esperar por um troco que a vida não desenha.
Não existe justiça no centro do mundo,
o universo é um vácuo que não toma senha.
Você segue em frente sem dar o teu rosto,
sem justificativas, sem nós na garganta.
Vive como se nunca tivesse imposto
a ferida em mim que até hoje espanta. Enquanto eu torcia para ver tua queda,
rasgando o meu peito em noites em claro,
percebi que me iludi acreditando numa mentira pra doer menos.
Engoli a mentira que me foi contada de que o mundo dá voltas falada por uma pessoa que também não aceitou a traição só pra acalmar a ferida.