Aira Lirien

A Moeda Rara da Mentira

 

 

Guardei o ódio no bolso como uma moeda rara,

esperando o dia de ver o teu preço cobrado.

 

Achei que o tempo fosse um juiz de linha clara,

que traria o teu castigo em um dia marcado... Vivi de espiar o teu horizonte, no engano

de que a tua queda pagaria o meu chão partido.

 

A mística do troco é um consolo humano que o universo vinga o ofendido.

 

Mas os anos passaram sem estrondo ou vigília. Vi teu sorriso novo em fotos de calçada.

 

Você ergueu seus muros, refez sua família,

e a tua colheita nunca foi paga, e eu que esperei a peste ou o deserto. Também deitei raízes em outra estação, o meu peito, aos poucos se abriu e eu vivi.

 

Foi aí que entendi o meu erro mais fundo:

esperar por um troco que a vida não desenha.

Não existe justiça no centro do mundo,

o universo é um vácuo que não toma senha.

Você segue em frente sem dar o teu rosto,

sem justificativas, sem nós na garganta.

 

Vive como se nunca tivesse imposto

a ferida em mim que até hoje espanta. Enquanto eu torcia para ver tua queda,

rasgando o meu peito em noites em claro,

percebi que me iludi acreditando numa mentira pra doer menos.

 

Engoli a mentira que me foi contada de que o mundo dá voltas falada por uma pessoa que também não aceitou a traição só pra acalmar a ferida.