Versos Discretos

Não sei escrever erótico

Como hei de transcrever, sem heresia,
A arquitetura fina de teu corpo?
Se o verbo se faz trêmulo e distorcido
Diante da carne em sua idolatria?

Como narrar a curva de tuas coxas,
Essas colunas de marfim ardente,
Que se abrem procelosas, docemente,
Para acolher minhas vertigens roxas?

Perguntas-me como fixar no papel
O pomo de teus seios, cuja ponta
Desperta em ríspido botão, e afronta
Minha boca faminta de teu mel?

Não há sintaxe para o beijo insano,
Onde as línguas se enlaçam, deglutidas,
E as salivas, em febre misturadas,
Bebem o sopro de um naufrágio humano.

E então, o ápice: a flor que se contrai,
Suga e esmaga o meu falo em sua prensa,
Numa voragem úmida e densa,
Onde o atrito é o deus que nos atrai.

Até que a carne em fúria estremeça,
E no espasmo final do gozo cru,
Teu ventre jorre o sumo, e o meu, em ti,
Em gozo e lava o mundo desmantele.